Faixa de areia mais larga não é prioridade

Andando à beira do mar na nossa Praia Central, imaginamos a utilidade do alargamento da faixa de areia, como anunciada desde sempre pelos nossos administradores e agora abraçada pelo prefeito Fabrício Oliveira. Juntamos alguns pensamentos a respeito. 

O primeiro é quanto à utilidade prática. Afirmam alguns: permitir a vinda de mais turistas; e isso demonstra uma bobagem épica. Mais turistas pra quê? A cidade não comporta e não se trata da faixa de areia, mas da infraestrutura urbana, a partir da principal parte - o sistema viário. 

O segundo é quanto à necessidade de se implantar uma nova face social e de lazer na orla. Bobagem novamente. Isso é possível fazer agora, desde que se reesquematize o sistema viário. Por exemplo, fechando uma das pistas e destinando-a ao uso de pessoas e não de veículos ou retirando-se daqui a maioria dos quiosques e tendas de churros (por isso condena-se a besteira de construir-se tendas de churros de alvenaria) e liberando-se o espaço para lazeres.

O terceiro é afirmar, como afirma o prefeito e tantos outros, que a faixa de areia alongada impedirá o avanço do mar, citando-se o exemplo de grandes ressacas. Outra bobagem. Exemplos: as faixas de areia como as das praias de Arroio do Silva, Rincão e Mar Grosso (sul do Estado) têm mais de 300 metros e, no entanto, quando das ressacas como as recentes por aqui, o mar avança até algumas quadras do povoado, entrando em casas e derrubando construções. Não será o tamanho da faixa de areia, ainda mais sendo artitificial, que impedirá o avanço do mar nessas ocasiões. 

Quanto a dizer que previnirá as consequências do aquecimento global e natural (ainda discutível, até cientificamente, com muitas controvérsias a respeito) avanço do mar é outra bobagem (permitam repetir), pois o avanço do mar se dá pela elevação do seu nível. E elevação do nível do mar não há faixa de areia que suporte, exceto se ela elevar o nível do solo, o que não é o caso. Lembrando sempre que Balneário Camboriú está no nível do mar e isto altera nada em relação à eventual ação do mar, com ou sem engordamento da faixa de areia. Serão R$ 100 milhões jogados fora, por todas essas razões.

Finalmente, há mais de 20 anos se discute o engordamento da faixa de areia como fundamento de desenvolvimento do turismo. E nesses anos todos está demonstrado ser o desenvolvimento do turismo dependente de muitas carências e muitas ações, menos da faixa de areia. Quem sabe melhores e mais efetivas ações no saneamento básico, na oferta de melhor abastecimento de água (com destaque para a garantia de reservação, hoje pequena em relação às necessidades da cidade), na limpeza do mar, na garantia de segurança, de atendimento da saúde, do fortalecimento de nossa infraestrutura de lazer e diversão, a recuperação de nossa tradição da noite (desmantelaram com o que existia na Barra Sul por mera e simples especulação imobiliária) através da criação de um local para onde as pessoas possam ir e passar bons momentos com eventos de grande repercussão, como dantes. Tudo isso passa, ainda, pela humanização da cidade, pelo sistema viário caótico mesmo em dias de "paz" ou fora da temporada. Imaginar que tudo isso possa ser superado com o alargamento da faixa de areia é pensar pequeno ou indevidamente. Definitivamente, essa obra não foi prioridade no curso desse tempo todo e continua não sendo. Não inventem.