Onde a cuíca ronca

Queiramos ou não, o avançar do tempo nos colocará no dilema da saturação de espaços de Balneário Camboriú. Exceto se estancarmos a migração e a natalidade por aqui. E, claro, o volume de construções, horizontais ou verticais. Nenhuma organização possível indica organização provável num cenário de inchaço - chamado crescimento. Em pouco tempo, dez anos quem sabe, terrenos inexistirão para edificações multicelulares no centro nervoso. E, se descontrolar, sequer nas periferias próximas. Plano Diretor nenhum impedirá esse adensamento. Mesmo impondo limites. Exceto se limitar o definitivo parâmetro físico: não entra mais ninguém. E quem sair, não retorna. 

Hoje mesmo, 40% das unidades habitacionais centrais são desocupadas em boa parte do ano. Só são ocupadas nas temporadas e a gente vê como é. Se os proprietários decidissem locar ou ocupar eles mesmos em definitivo, já teríamos um quadro caótico de espaços sociais, no trânsito e nos serviços. Os 35 milhões de água consumida por dia nem daria pro banho de todos. Aumentando a oferta de 80 milhões de litros por dia das temporadas, a capacidade instalada de reservação (15 milhões de litros), caso houvesse um pequeno rompimento numa adutora por meio dia, faria a cidade desesperar ante o tempo de reabastecimento, com recuperação da avaria e pressurização de rede. Neste caso, uma solução está à mão: estimular a reservação domiciliar, aumentá-la em muitos litros. Se possível, financiá-la, até. É mais fácil do que construir outros necessários reservatórios de alta capacidade. E mais rápido.

E temos o trânsito, com uma enorme incapacidade de fluidez dentro dos horários mais intensos e às vezes até nos instantes comuns do dia a dia. 

O quadro é complicado: afinal, mais de 90% da população está concentrada na região central, considerado um espaço em torno de 25 km2. Esta população gira por aqui o dia inteiro, inibida pela falta de opções de mobilidade, um pouco por culpa da imprevidência administrativa e outro tanto pela sua própria imprevidência de usar o carro pra tudo, podendo dispensá-lo ou usar meios alternativos de transporte. E então esbarramos noutro dilema: os meios de transporte alternativo suportam? Uma questão é o custo: é mais barato financiar uma moto e custear seu uso do que pagar transporte público. Aliás, fica mais barato a quem tenha automóvel usá-lo, com todos os inconvenientes de andar nas nossas ruas e avenidas, do que usar ônibus. 

Pena que tudo o que se pensa, hoje, é aumentar a faixa de areia - ainda que as teorias pra isso não encaminhem, em momento nenhum, para uma solução de mobilidade e ocupação racional do restante do espaço da cidade, que é onde a cuica ronca.