Sobre suicídios e a impotência de todos

Publiquei sobre suicídios, cuja incidência em SC vem causando horrores pela notoriedade dos envolvidos.

Nos suicídios se imagina o fim da linha de quem, em vida, não encontrou os caminhos ideais ou os perdeu para o desânimo e os conflitos internos. Fico sem entender as razões pelas quais gente bem sucedida, com posse de coisas que todos almejam, justamente para se dizer feliz (posição, dinheiro, poder, renome - isoladamente ou em conjunto), terminam o ciclo de forma trágica, abalando a todos pelo inesperado. São idosos, adultos, jovens, gente de aparência bem resolvida, profissionais de sucesso. Os confins da alma, realmente, são inexpugnáveis. O mundo é cruel demais, quem sabe. Por isso, quiçá, não só de consolo e palavras de carinho e conforto precisa-se em horas de opróbrio, quando os caminhos parecem terminar e a saída se mostra complicada. Precisamos, quem sabe, de realidades diferentes. Lutar menos, lutar mais ou não lutar, eis a questão. Fico sempre pensando se terminar a própria vida é coragem demais ou extrema covardia de encarar as coisas. É um desígnio a ser esclarecido.

Várias análises e opiniões a respeito sucederam. Uma da PM, que se nega a veicular ou dar informações desses casos. Com a ressalva da "notoriedade" dos envolvidos ou a repercussão geral. Diz o Cabo Denício, responsável pela Comunicação da PM em Balneário Camboriú:

Existe uma convenção profissional extraoficial, uma espécie de acordo seguido pelos manuais de redação de grandes jornais que determina: suicídios não serão noticiados pela imprensa. Tanto pelo respeito à dor e à privacidade da família, quanto para não expor um momento tão delicado para a opinião pública, bem como pela ética jornalística – uma questão moral de incentivo a novos casos.

O sociólogo francês Émile Durkheim (1977) já abordava o suicídio como uma manifestação individual de um fenômeno coletivo e cada sociedade está predisposta a fornecer um contingente determinado de mortes voluntárias. As razões dos suicidas seriam processadas individualmente, mas sempre de modo a refletir uma realidade social.

Sabemos que, noticiados ou não, atos violentos não deixarão de ser praticados. O compromisso da imprensa é com a realidade. O bom senso e o bom gosto devem ser manifestados na linguagem editorial adotada por cada veículo para noticiar determinados acontecimentos. Em seu estudo sociológico sobre o suicídio, Durkheim (1977) também aponta a possível relação entre noticiar suicídios e estimular novos casos. De acordo com o pesquisador, só há imitação se existir um modelo que possa ser imitado: sem uma fonte, não há contágio. 

O jornalismo não existe somente para noticiar fatos. Seu papel vai além – o de informar no sentido de instruir a população, de construir uma forma de pensar e proporcionar um compartilhamento de informações e experiências, promovendo debate e maior compreensão sobre temas sociais.

A Polícia Militar busca sempre abordar campanhas sociais de conscientização – como o setembro amarelo, sobre a prevenção do suicídio, por exemplo – com o objetivo direto de alertar a população a respeito da realidade, oferecendo informações e incentivando um debate sobre como auxiliar pessoas sobre a valorização da vida, como superar a perda de uma pessoa querida por suicídio ou como relações familiares e escolares podem influenciar crianças e adolescentes a pensarem em suicídio em decorrência de uma pressão social. Isso, sim, tem um papel social que vai além de noticiar o fato em si e reflete a verdadeira missão de um jornal.

Face ao exposto, alguns veículos de imprensa questionam nossa posição quanto à não divulgação de casos de suicídios, mas, apesar de serem recorrentes na sociedade, em respeito ao jornalismo, a ética, e à família, não divulgamos tais casos, exceto em situações particulares, pela notoriedade dos envolvidos ou pelo interesse público das razões que o levaram ao ato.

Cb PM Denício Francisco Rosa
Assessor de Comunicação Social 
12º Batalhão de Polícia Militar.

O jornalista Rafael Weiss, assíduo do grupo de profissionais adicionados no whatsapp da PM, opinou na sequência:

Acho errado tbm a divulgação de suicídios (caso único) do dia dia. Quando iniciei na imprensa aqui, no extinto Tribuna Catarinense, tínhamos um código de não divulgar suicídios, mas concordo com o Aderbal neste sentido. O surfista de Joinville, grande notoriedade, a imprensa divulgou apenas que ele foi encontrado morto. No caso do reitor da UFSC, convenhamos, seu suicídio foi mais do que isso, foi um ato político (vide Getúlio Vargas). Já Denicio e Evaldo, o importante para nós da imprensa é termos a estatística do ano para trabalhar em nossas matérias. Quantos suicídios registrados em BC em 2017? Quantas tentativas? Quantos casos a PM ou populares conseguiram evitar? Essas informações são preciosas para a imprensa fazer um mapa de casos no estado e no Brasil e poder ajudar em campanhas e até cobrar do poder público políticas efetivas de saúde mental.

Denício prometeu providenciar a estatística.

Assistimos a um depoimento final de um suicida (não divulgado e ficará fechado a sete chaves). O desespero nítido até na sua respiração, antes do ato final. Sensação de impotência horrível.