Mazelas, belezas, graças e amores da cidade

Os embaraços da noite do réveillon ou da temporada até aqui são normais da época. Indeclinável reconhecer mazelas, dissabores e inconveniências. Culpas do gigantismo da temporada - gente demais, veículos demais,  consumo demais, bebidas demais, comilanças demais, espaços de menos. Todo ano igual - nuns desses anos, piores; noutros, melhores. A definir a dimensão do "melhor" e do "pior". 

Para tudo isso, por exemplo, a segurança funcionou bem, graças à ação bem estruturada de nossa Polícia Militar e da Guarda Municipal no policiamento ostensivo. Lixo demais na orla e na cidade? Era de se esperar e nem é novidade. Pelo contrário, o esperado. Neste ano funcionou muito bem a operação rescaldo, com a limpeza da lixarada deixada em todos os lugares, destaque para a areia da praia no pós réveillon, a tempo de a praia estar prontinha para quem desejasse se espichar à beira do mar. Nisso e noutros aspectos há sempre senões, como a permanência exagerada e os descuidos com os sanitários químicos colocados ao longo da orla. Ficaram ali tempo demais, sem a devida manutenção e alguns vazaram dejetos na calçada ou apenas exalavam o característico cheiro de fezes e urina. 

Já se ouviu por aí uma crítica aos críticos. Tipo: "não gostam da cidade, se mudem". Ou seja: deixem os erros pra lá. Só louvem os benefícios e vantagens. Como se a cidade fosse uma propriedade privada de quem está ou usufrui do poder e só suas visões prevalecessem. 

De fato, controlar o uso (e o abuso) de tanta gente empilhada nos poucos quilômetros quadrados do centrão da cidade é uma tarefa hercúlea. Sujeita a falhas inevitáveis, pelo próprio fator da demasia. Não há competência ou boa vontade que resolva tudo a tempo e hora, ainda que se tente. 

No mais, as perspectivas se repetem, visando o futuro: precisamos de maior capacidade no tratamento de esgoto. Não há qualquer dúvida de que, ante tanta gente usando o sistema, o tratamento se torna insuficiente e o retorno de esgoto não tratado ao Rio Camboriú é inevitável. Este ano não se tem notícia, por outro lado, de desabastecimentos graves de água - exceto os pontuais, próprios de temporada, quando a pressão em muitos pontos, mais elevados e/ou mais distantes, fica prejudicada. Isto se resolverá, como já se opinou aqui, numa medida grande e a médio e longo prazo: uma nova adutora de um segundo manancial, quem sabe o Rio Itajaí Mirim. Ficaríamos com duas captações - dividindo o abastecimento e garantindo, por décadas, a normalidade e evitando qualquer assombração com eventuais consumos exagerados, mesmo numa temporada feroz. Além do que, já se sabe, nossa reservação é mísera. Porém, apesar de o projeto dessa nova captação estar dormindo há uma década nas gavetas da Emasa, o primeiro pensamento é no seu custo. A explicar qual o custo maior: resolver de vez ou ficar com paliativos e possibilidade de falta de água a cada temporada. Ou mesmo quando, em pouco tempo, a cidade exigir mais pressão e mais adução pelo crescimento vegetativo da população.

No caso do esgoto e no caso da água, muito já se fez desde o advento da Emasa, mas há muito a fazer ainda, para chegarmos a níveis satisfatórios de segurança de tratamento e abastecimento.

No mais, é assim: nossos defeitos são nossas virtudes. Sombra na areia, muvuca, desespero de filas e mais filas pra tudo, preços lá em cima, críticos chatos, sujeiras fortuitas aqui e ali, cheiros desagradáveis em muitos locais, trânsito louco, falta de lugar para estacionar, gritarias, azarações. Nada disso afasta o turista daqui, ano após ano. E no fim, sejamos realistas: eles pouco estão ligando pra isso tudo, tanto que retornam em mais de 95% dos casos.

Pelo jeito, a ser assim, os ranzinzas somos nós. Mas, cá pra nós, não dá pra deixar de ser. Nem que seja para levantar discussões.