Matéria da Globo frustrou prós e contras

A expectativa criada ante a matéria pautada pelo Fantástico da Rede Globo sobre Balneário Camboriú deixava à mostra a possibilidade de abordagem depreciativa, de um lado, e a esperança de uma promoção espontânea da cidade. Pelo que se viu, pode-se deduzir tudo ou nada: nem difamou, nem promoveu. Recheada de obviedades, a reportagem foi acanhada, do ponto de vista profissional, quase amadora para os padrões Globo. A citação do vento das ruas foi infantil. Sem falar na repetitiva referência à "Dubai brasileira".

Pode-se, até, afirmar que ao enunciar os investimentos imobiliários da cidade por parte de grandes astros nacionais e o aparecimento de breve depoimento de Sharon Stone, que propagou prédios da FG em publicidades e relatou sua ode à cidade, a matéria foi positiva, mais do que negativa.

Sombra na areia da praia é fato notório há muito tempo. E nem isto, mesmo repercutido no Fantástico, irá causar danos quaisquer. Pela simples e boa razão de que os turistas que frequentam a praia há anos e anos já conhecem a realidade. E nem dão bola. Pelo contrário, continuam frequentando de boa.

Muitos queriam uma matéria mostrando mazelas, como o Canal Marambaia; outros queriam uma matéria mostrando belezas peculiares da cidade, como as Praias Agrestes. Mas isto passou batido, frustrando os dois lados. Felizmente ou infelizmente, para quem teve ouvidos para ouvir, uma realidade marcou: a cidade, daqui a 10 anos, terá sérios problemas de abastecimento de água, se não houver medidas a respeito. A declaração do prefeito Fabrício Oliveira de estar providenciando "mais reservação" é estrábica: o que a cidade necessita é de mais captação ou outra captação, para reforçar a oferta de água além da captação de 700 litros por segundo autorizada pela outorga do Rio Camboriú. Mais reservação é necessária sim, mas não é a solução para uma prevista débâcle do abastecimento a curto prazo. A reservação atual de 15 milhões de litros, mais os dois milhões previstos para os reservatórios das Praias Agrestes, é uma miséria até para tempos normais, quanto mais para temporadas ou para o crescimento vegetativo da população em dez anos. Dá, se tanto, em caso de falha na adução e por um período de um dia ou dois, para quatro ou cinco horas de consumo.

Além do aumento da reservação, o prefeito insistiu na tese do alargamento da faixa de areia como solução para a sombra na praia. O que uma tese repercutida por anos e anos faz na cabeça das pessoas: nada prova que o alargamento solucionará alguma coisa para a cidade; coisas que já não podem ser feitas agora. A frequência desta e de outras temporadas indicam isto. O fluxo não aumentará e nem melhorará com mais faixa de areia. 

Outra coisa que precisa ser corrigida logo é a megalomania: parar com isso de inflacionar os números de turistas que nos frequentam. Por ser inútil e por ser inverídico. Nosso turismo não precisa disso - inflação de dados.

Bom lembrar sempre de um alerta até da própria construção civil: daqui a dez anos não haverá mais espaço e essa matriz econômica precisa ser substituída ou parcerizada com outras, como alternativas para a saúde econômica da cidade. E parece que nada está sendo feito para encaminhamentos neste sentido. O imediatismo continua vigorando.