Remendos, supérfluos e inutilidades administrativas

Tá mesmo na hora de dar uma mexida profunda no sistema viário da cidade e não somente alterar ou ampliar trajetos, criar novas circulações, alargar vias, remendá-las, pavimentá-las e repavimentá-las. Há algo mais, muito mais, a ser feito. A física ensina: muito dentro de pouco não dá. É notório que, dentro de dez anos, se nada houver em contrário, a cidade trava. Muito carro, muita gente, pouco espaço, alternativas reduzidas de lugares humanizados - por onde as pessoas possam passar e onde possam conviver, sem circular por longos trechos e sem precisar de veículo particular ou ao menos do automóvel. Alguma dúvida? Quem sabe isso passe por uma indelével campanha de educação de costumes, aliada à oferta de opções de circulação sem o carro.

Nesta cidade sempre se improvisou demais, sempre se adotaram medidas fortuitas, localizadas, circunscritas a um ponto ou outro, sem vislumbrar as consequências perto ou longe no tempo. Falta um macroestudo definitivo. Bem, se ainda nem sabemos qual é nosso futuro econômico quando a atual menina dos olhos da construção civil saturar - e não demora, segundo admite gente da própria construção civil -, pouco saberemos de projetos de circulação viária. Estamos atolados na lentidão e na impropriedade de medidas paliativas e eventuais.

Estendendo a discussão (mas isto será objeto de outra avaliação curiosa aqui mesmo, mais adiante), vemos anúncios espetaculares de rodas gigantes, de alargamento da faixa de areia e não vemos discussões objetivas e sérias sobre como liquidar ou reduzir muitíssimo a poluição que nos sufoca (as últimas cinco análises da Fatma são mortais para demonstrar isso). O reflexo disso pega todo o resto. O Canal Marambaia está sendo objeto de uma ação que, num primeiro momento, pareceu excelente, e estamos vendo que não é: a poluição do Pontal Norte aumentou consideravelmente depois disso e oscila em demasia entre amostragens otimistas e péssimas. Inclusive por duas vezes, neste ano, os índices de coliformes do Pontal Norte atingiram o ponto máximo das análises por duas vezes: 24.196, coisa inédita em todos os tempos, inclusive nos períodos de maior densidade de esgotos ali. Uma possibilidade é que o canal se abriu com a dragagem, a água escorre com mais velocidade e atinge com mais força o mar, jogando a mancha negra mais distante. Por quê? Porque os esgotos continuam sendo despejados nele. Sem lacrar os esgotos, nada acontecerá de melhor.

O caso do Marambaia, como o caso de tantas outras obras, tidas e havidas como salvadoras, acabou por demonstrar que não há milagres e é preciso que os políticos politizem menos suas ações. No passado e no presente, os exemplos se amontoam disso daí. O próprio Canal Marambaia é o exemplo acabado de tais controvérsias, tantas as vezes que anunciaram a sua solução, afinal ainda (muito) distante.