Alargamento da praia, o mote imponderável

Que se saiba, a repercussão econômica anunciada pela execução eventual da obra de alargamento da faixa de areia beneficiará unicamente a construção civil, já suficientemente agraciada com os fatores naturais da cidade. Isso nos remete a outra tese da própria construção civil: essa matriz econômica estará estrangulada em no máximo dez anos, por causa da mera e simples falta de espaço e exaustão natural do ramo. Se uma nova ou novas matrizes econômicas não forem implantadas, a cidade poderá sofrer um retrocesso e virar um dormitório de aposentados. As temporadas, já hoje, são festejadas pelo volume de turistas, mas, como se viu nas últimas declarações do trade turístico, principalmente bares e restaurantes, além de comércio em geral, a reação econômica não acontece. Certo que estamos habituados a essa choradeira de todos os anos, mas é uma realidade, enfim, admitida pelos próprios protagonistas.

No que o alargamento da faixa de areia mudaria isso é impossível dizer. 

Alinhavamos nas mídias sociais - Facebook e Twitter - algumas notas sobre o assunto:

1) Peguem fotos antigas da Praia Central de Balneário Camboriú, de décadas de 40, 50, 60, e compare a faixa de areia de então e a de agora. E respondam: quanto o mar avançou ou a faixa de areia reduziu?

2) Ninguém conseguirá mostrar uma pesquisa de satisfação de temporadas com turistas - só uma - em que esses reclamem das dimensões da faixa de areia da Praia Central de Balneário Camboriú.

3) Apontem um reflexo econômico negativo pela inexistência da faixa de areia mais larga.

4) Quanto a outra razão dos defensores do alargamento da faixa de areia, o sombreamento, já ouviram turista reclamar ou deixar de vir a Balneário por causa disso? Se tiver dúvida, olhem as estatísticas turísticas dos últimos dez anos e pronto.

4) Se não se resolverem fatores de poluição da Praia Central, alargar a faixa de areia só dimensionará o problema ainda mais. Melhor destinar recursos e tecnologias para a despoluição, primeiro. Até técnicos do próprio governo reconhecem que a praia está doente de poluição. É fato, apenas. Cuidem disso primeiro e depois se poderá discutir alargamento da praia.

Ora, em relação a este último parágrafo, os mais de R$ 200 milhões previstos para o alargamento da faixa de areia (R$ 110 milhões e tanto só para a obra e outros R$ 90 milhões e tanto para sua urbanização), financiados pelo BNDES, seriam muito melhor aplicados se fossem consumidos num grande projeto de despoluição da praia - do Rio Camboriú, passando pelo Rio Peroba, chegando ao Canal Marambaia e indo até à nossa deficiente e incapacitada rede de coleta de esgotos - com seu trecho central com tubulações ainda de 1980, fato anunciado pela própria Emasa. Que afirmou ainda, em reunião do Grupo Voluntário Rio Marambaia, que se não atacar essas obras com urgência, não resolverá nada em lugar nenhum, muito menos no Canal Marambaia.

Por essas coisas, é quase insano pensar em enfiar essa montanha de dinheiro na faixa de areia, sabendo que ela estará comprometida de qualquer jeito, como está hoje, pelos despejos irregulares de esgoto.

Atualmente, a Fatma está examinando a liberação da LAO (Licença Ambiental de Operação) do sistema de coleta e tratamento de esgoto de Balneário Camboriú, inexistente desde 1982. E está lá também a aprovação da LAP (Licença Ambiental Prévia, para a fase do projeto em si), depois a LAI (Licença Ambiental de Instalação, para o início da obra) e finalmente a LAO (Licença Ambiental de Operação, para começar o uso ou funcionamento) da faixa de areia.

Para cada uma dessas licenças ser aprovada, muitas condicionantes deverão ser cumpridas, em minúcias. Por isso a LAO do sistema, que vem sendo tentada desde 2005, quando a Emasa assumiu, não saiu ainda. Uma briga de 13 anos. Porque a cada grupo de condicionantes impostas, a Fatma enfia mais uma dezena, por falta de virgulas ou pontos ou um termo indefinido. 

Então, primeiro é bom não se iludir, achando que as licenças fluirão com uma velocidade inexistente em qualquer caso afeito à Fatma, em qualquer lugar. E segundo, preparem-se para o futuro: praias já engordadas, como Balneário Piçarras, vivenciaram o drama de não ter funcionado. Hoje, as ressacas invadem suas avenidas principais sem pejo algum. 

Para exemplo: mesmo as praias com imensas faixas de areia natural, como Canasvieiras, Balneário Rincão, Arroio do Silva, Mar Grosso - coisa de mais de 300 metros -, sofrem com as ressacas. As águas, quando ocorrem as ressacas, penetram na comunidade até à segunda ou terceira quadra. Sem perdão. 

O que se quer dizer é que essa conversa de impedir o avanço do mar é furada. O mar não tem freio ABS. 

Por trás disso há outros interesses que, caso se realize a obra por um milagre qualquer, serão evidentes lá na frente. E então virão os choramingueiros até aqui, ler isso e dizer: "É mesmo". E será tarde. 

http://www.defesacivil.sc.gov.br/index.php/ultimas-noticias/4460-ressaca-deixa-rastros-no-litoral-de-santa-catarina.html

http://www.oblumenauense.com.br/site/mais-de-30-pontos-litoral-de-sc-registraram-ressaca-do-mar/