Jaraguá do Sul: realidades antagônicas na criminalidade

O caso de Andreia Campos Araujo, em Jaraguá do Sul, assusta e entra para a lista nacional de feminicídios que vêm ocorrendo nas últimas semanas. Mas a violência contra a mulher começa bem antes, em atitudes que podem parecer inocentes. E os números provam isso.

Entre janeiro e maio deste ano, há registros de que 218 mulheres foram vítimas de violência em Jaraguá. Entre os crimes cometidos estão o estupro consumado e tentado, as lesões corporais e o roubo.

Os números de violência doméstica, que incluem ainda ameaças, danos, injúria e outros, são somados aos de violência contra a mulher, totalizando 447 casos.

Essas mulheres sofreram injúrias, ameaças, estupros e tentativas de estupro de pessoas que convivem no mesmo ambiente familiar. Os números são do Sistema Integrado de Segurança Pública (Sisp) do Estado.

O Atlas da Violência de 2018, com números de 2016, mostra que, naquele ano, 4.645 mulheres foram assassinadas no Brasil, o que representa uma taxa de 4,5 homicídios para cada 100 mil brasileiras. Em dez anos, observa-se um aumento de 6,4%.

Em 2016 também foram registrados 49.497 casos de estupro nas polícias brasileiras, conforme informações disponibilizadas no 11º Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

Nesse mesmo ano, no Sistema Único de Saúde (SUS) foram registrados 22.918 incidentes dessa natureza, o que representa aproximadamente a metade dos casos notificados à polícia.

Contraditando tudo

Segundo pesquisa divulgada em 5 de junho deste ano, Jaraguá do Sul foi considerada a cidade mais pacífica do país quando levados em conta municípios com mais de 100 mil habitantes.

Os dados apontados na pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) se referem ao ano de 2015, quando Jaraguá possuía 163.735 habitantes e registrou apenas cinco homicídios e uma morte violenta com causa indeterminada. A taxa de homicídios foi de 3,1 para cada 100 mil habitantes.

Em 2016, de acordo com os dados da Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina, seis homicídios dolosos foram registrados na cidade. Neste ano, os dados atualizados até o mês de março apontam para três homicídios na cidade.

Além de Jaraguá do Sul, outra cidade catarinense que figura entre as dez mais pacíficas do país é Brusque, que aparece na segunda colocação, com taxa de homicídio de 4,1 em 2015.

De um pólo a outro

A cidade vai de um pólo a outro numa mesma realidade – a violência, separando números alentadores quanto a homicídios e desastrosos quanto a estupros, violência doméstica e agressões sexuais.

E quando muitos referem como saídas para combater a criminalidade as chamadas “políticas públicas”, como o potencial econômico, o emprego, a cultura, a educação, a qualidade de vida, boa estrutura social e de saúde, a comparação é ainda mais chocante: Jaraguá do Sul é, justamente, uma das melhores, senão a melhor de SC e do Brasil nesses quesitos todos. E então verificamos que as causas podem ser bem outras e, afinal, o atraso de uma cidade não é condicionante para, por exemplo, evitar ou reduzir índices de estupros, violência doméstica, agressões sexuais e feminicídios. Algo está muito errado nisso daí.

(Com dados do Correio do Povo, periódico de Jaraguá do Sul)