A arte de engolir sapos

Indisfarçável, até publicamente, o constrangimento de lideranças tucanas do baixo clero e até da cúpula estadual com os arranjos determinantes da coligação majoritária estadual. Sem meias palavras, manifestaram-se nomes fieis ao partido, como Luzia Coppi Mathias e Leandro Índio da Silva, conhecidos e reconhecidos como atuantes soldados de todas as horas - garantindo apoio, campanha e voto, mas declarando-se explicitamente desconfortáveis e centrando sua fidelidade na justificativa de cravar votos na chapa em função dos nomes ao senado e à vice-governador. Inclusive Paulo Bauer expressou sua frustração. Vai, mas vai engolindo sob engulhos.

As composições todas, como já se comentou neste site, leva a desconfiança do próprio eleitorado quanto à lealdade entre os próprios integrantes das chapas formadas - amigos e inimigos ao longo do tempo, no fluxo e refluxo de conveniências de momento. Foram governo - na verdade ainda o são - e no entanto agem como opositores. São apoiados pelo atual governador e, no entanto, despejam ácidas críticas à situação estadual, como se fossem isentos de responsabilidade e culpa, tal o envolvimento durante todo o tempo do mandato de Raimundo Colombo.

Por isso, é um fator principal, poucas dúvidas restam quanto à reação descrente do eleitor nas lideranças políticas e nas instituições de governos, de fio a pavio. 

Os bastidores emergiram à imprensa, ou somente o possível. Sabe-se lá o que levou Esperidião Amin, por exemplo, a abrir mão de uma candidatura ao governo que o colocava como disputante praticamente certo em um eventual segundo turno, com plenas condições de conquistar o pódio da eleição.

Imagine-se as pressões e a frustração - afinal demonstrada em vídeo gravado e postado nas mídias sociais - sobre Paulo Bauer, eufórico com sua indicação ao governo pelo PSDB e depois alijado sem dó e nem piedade. Acabou candidato à reeleição do Senado, onde, coitado, vai encarar uma disputa com Raimundo Colombo e Esperidião Amin, para citar os dois mais prováveis líderes em qualquer avaliação que se faça, independente do que se possa imaginar em desgaste de ambos, por razões diferentes. Pouca dúvida se tem de que os dois são os pole positions. Sem considerar uma zebra cabreira como a de 2002, quando os líderes nadaram e morreram afogados nas tatuíras na eleição ao Senado. Veremos se o raio cairá duas vezes no mesmo local. Improvável, ao menos neste momento. Em todo caso, eleição é um fenômeno imponderável, ainda mais em relação a uma eleição majoritária como a do Senado, em que quem leva mais votos chega e não se discute.

Repetindo Nereu Ramos: a política é, de fato, a arte de engolir sapos.