O país do pós desgraça

A morte de 242 pessoas e os 680 feridos no incêndio da boate Kiss em Santa Maria (RS), na noite de 23 de janeiro de 2013, resultou na edição de uma lei especial para prevenir tragédias iguais. Mas só depois do sinistro. Até ali, a fiscalização falhou em todos os locais. Ainda falha muito, apesar dos rigores estabelecidos. 

O inquérito policial apontou muitos responsáveis pelo acidente mas poucos foram denunciados pelo Ministério Público à Justiça. O inquérito policial-militar, por sua vez, foi condescendente com os bombeiros envolvidos no caso. A Justiça instaurou um processo e começou a ouvir depoimentos como preparação para o julgamento, porém os sobreviventes e parentes dos mortos receavam que a impunidade fosse a tônica do evento criminoso. De fato, os servidores civis e militares, bem como as autoridades públicas, corriam pouco risco de sofrerem punições.

Chegou-se a sugerir a punição das vítimas.

Agora a tragédia histórica do incêndio do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista no Rio de Janeiro conduz às mesmas sendas: fala-se após a ocorrência. O que se deveria fazer e não fez, o que se deveria dizer e não disse, as carências causadoras e tudo o mais. 

Tinha razão Tom Jobim, quando lhe perguntaram qual a diferença de viver nos Estados Unidos e no Brasil: "Lá é bom, mas é uma merda. Aqui é uma merda, mas é bom". Seria bom se os brasileiros, autoridades responsáveis à frente, soubessem valorar devidamente o que nos cerca. Nos Estados Unidos, pelo menos, se preserva muito bem a cultura e a história. No Museu Nacional foram embora 20 milhões de acervo, peças inestimáveis e muito da nossa vida passada. E então passamos a culpar este ou aquele, de preferência o adversário. Mas sabemos que as responsabilidades se esparramam por muitos lados e ninguém está isento. Triste.