Peixes mortos aparecem no Marambaia

Apesar do esforço sincero e louvável de um grupo espontâneo que luta por sua recuperação, a situação do Canal Marambaia só piora. Além da degradação continuada, agora apareceram muitos peixes mortos na sua margem, decorrência direta da sua poluição. Coisa que não se via de há muito. Deve ter algo ácido ou venenoso caindo ali.

Algumas publicações do grupo endereçam o problema para outro patamar: a Emasa onera a conta de água com 80% de cobrança sobre coleta e tratamento de esgoto e, no entanto, não presta o serviço adequadamente. Por isso, há quem advogue a devolução do dinheiro, por serviço não ou mal prestado. A ideia não é das melhores, pois se isto ocorrer, mesmo via judicial como se pretende, esvazia a possibilidade de se exigir a prestação de serviços. Seria vestir um santo e pelar outro. Ou pior a emenda que o soneto.

Contudo, é sempre bom avivar a questão ao máximo, pois é notória a deficiência do sistema de coleta e tratamento de esgoto em Balneário Camboriú, apesar das aparências. A rede não comporta a demanda. E quanto mais se amplia a rede, pior fica, pois a capacidade permanece estacionária. Quando entrar em atividade a coleta das Praias Agrestes, a tendência é estrangular o sistema, se não houver investimentos maciços e urgentes na ampliação do tratamento da ETE do Nova Esperança. Ainda mais porque a inútil ETE de Taquaras deverá ser desativada, eis que não atingiu em nada seus objetivos. Um dinheiro rigorosamente atirado pela janela. E um planejamento mal feito sob todos os aspectos.

Todos os dias há depoimentos contundentes de despejos no Canal Marambaia, teimosamente chamado de rio, que faz tempo não é, com imagens repetidas em vários pontos, o mau cheiro exalando do canal em todos os pontos e, ultimamente, o surgimento de peixes mortos nas suas margens, numa demonstração da existência de materiais ácidos ou venenosos na água. 

Há mais de um ano, tentou-se de tudo, discutiu-se muito, foi-se de um lado para outro, mas o Canal Marambaia continua no mesmo lugar. Em alguns aspectos até pior. E as soluções técnicas apontadas são objeto de conflito entre técnicos de fora e técnicos da empresa, que discordam em pontos fundamentais, como a forma de recuperar a rede e aplicar metodologias na limpeza do próprio canal. E também pelos valores encontrados no financiamento desses projetos, muito diferentes em montantes de um lado para o outro. 

O fato é que não é de agora que isso ocorre. Ao longo de tantas administrações, pouca atenção - ou a atenção devida, pelo menos - se deu à poluição causada por estações elevatórias com capacidade saturada, a própria incapacidade do tratamento (até 2010, pelo menos, mais de 60% do esgoto voltava in natura para o rio Camboriú) que melhorou sem resolver o principal, a rede sucateada e com dimensões inadequadas em muitos trechos, a invasão da construção civil de pontos importantes (lá atrás, a extinção sumária de lagoas e as construções sobre o próprio rio Marambaia, aterrado criminosamente). Estamos, portanto, sofrendo os efeitos de causas permitidas e estimuladas por administrações omissas e gente relapsa em todos os níveis. Não faltou dinheiro: faltou vontade, espírito comunitário, vergonha e cidadania. E sobrou fome pantagruélica por lucros e vantagens, em detrimento da vida da cidade. O reflexo está aí.

Repetimos o que já dissemos noutro artigo: lutar pelo Canal Marambaia é bonito, mas é essencial e prioritário que se resolva, antes, o todo. Sem isso, solucionar eventualmente o problema da poluição do Marambaia, coisa distante de acontecer, será apenas uma parte do problema - não a principal.