Violência nossa de cada dia - o ataque aos padres

Quando a gente imagina ter visto tudo e sentido tudo, vem um episódio como o de bandidos entrando na Igreja Santa Inês, matriz de Balneário Camboriú, roubar e agredir a dois frades indefesos. Na verdade, agressões vemos todos os dias e os bandidos estão por aí, fazendo farra com a nossa insegurança de cada dia. E, antes que comecem, vou dizendo: parem com a idiotice de ficar jogando culpa aqui e ali. Estamos diante de uma crise geral de respeito, de leis, de sistema falho, de falta de cumprimento do que se convenciona chamar de direitos.

Deixo uma aposta aberta: vão acabar prendendo esses bandidos. Vale o que quiserem que, examinadas suas fichas, lá estarão reincidências de todos os tipos de crimes, quem sabe mandados de prisão em aberto ou solturas provisórias ou até aquele prende e solta de menores. O resultado é este aí. A mesma sociedade que costuma jogar culpas pra todo lado, é a mesma que reclama que não tem direitos. E é a mesma sociedade que, ao ver um bandido eventualmente seviciado por resistir à prisão ou agredido por populares ante a raiva de ver a impunidade quase absoluta e as falhas rotundas da lei e da justiça, condena a polícia e a lei. E ao vê-los jogados em cadeias infectas, os quer bem tratados. E então a Justiça, por alguma forma, interdita presídios – e assim os bandidos vão sendo beneficiados. É duro dizer, mas é realidade, apenas isso.

Não inventemos culpas, mas convencionemos que responsabilidades há. Se não usarmos critérios subjetivos, políticos ou partidários, vamos encontrar uma delas muito clara aí. A responsabilidade da segurança pública é do Estado. Em Balneário Camboriú há uma Guarda Municipal Armada. São, a rigor, mais de 200 pessoas a fazer segurança. Então está dito e compreendido que estado e município assumiram uma responsabilidade. Convenhamos, antes de prosseguir: não há como perceber um bandido ou suas intenções. Muita gente gira pela cidade e quase tudo é acessível. Nem shoppings estão escapando, eles que possuem segurança própria. A bandidagem é criativa, maleficamente criativa. Em casos tais, nem 500 policiais resolveriam. Não há como colocar um à frente de cada domicílio, de cada comércio, de casa instituição ou de cada banco ou igreja. Nós pensamos em um ou outro momento na possibilidade de sermos abordados e vivemos distraídos, enquanto não houver uma ameaça real. Os bandidos não: eles têm 24 horas inteiras, dias inteiros, semanas, meses para só pensar em como vão nos atacar, estão em vigília permanente. Têm tempo para ficarem estudando nosso jeito de ser, de andar, o por onde e o como fazer – o modus vivendi e o modus operandi. E então, quando mais estamos frágeis, eles atacam. Ou então, na casualidade do dia a dia, andando por aí, vão apenas atacando quem estiver pela frente – de preferência pessoas indefesas, como os frades da Igreja Santa Inês. Até porque dificilmente bandidos assaltantes andam sozinhos. Eles se garantem. E, em muitos casos, se forem confrontados por uma reação (ou não, é bom dizer), matam friamente.

O assalto e a agressão aos frades da Igreja Santa Inês, por ser a igreja e por serem os frades, pessoas marcadas como notoriamente do bem – chocou mais por isso tudo e pelo desrespeito claro. Não há mais medidas ou limites para os bandidos violentos. Já seria uma violência apenas roubar – agredir foi o suprassumo.

Como o menino turco encontrado na praia, morto: virou um símbolo trágico, embora morram milhares e milhares de crianças em iguais ou piores condições todos os dias, todas as horas, no mundo inteiro, por razões variadas – mas todas essas razões devidas à incapacidade do mundo e das pessoas de conviverem. Aqui, assaltos sucessivos ocorrem – o da igreja e dos frades chocaram por serem quem são.

É hora de parar com protestos e críticas apenas. É hora de parar com “passeatas pela paz”. É hora de cessarem demagogias e incompetências. Teses e antíteses. Fórmulas e estatísticas comparativas. Explicações científicas. A cidade, não apenas os governos e as polícias, precisa se mexer com praticidade. Estamos encostando no fundo do poço e estão tirando a escada.