Mentiras da balneabilidade

De vez em quando, e só de vez em quando, as análises de balneabilidade da Fatma ganham manchetes e viram notícia de destaque. Isso porque quando os números mostrados são considerados “normais” inexistem avaliações de causas. Ou quando inexistem intenções terceiras.

Na última análise, desta semana, matéria publicada pelos jornais da RBS atribui justificativa explicativa sobre o fenômeno da falta de balneabilidade em pontos de Balneário Camboriú e outras praias, por parte do diretor de proteção dos ecossistemas da Fatma, Márcio Luiz Alves. Diz, textualmente: Quando há vento forte e chuva a tendência é que a situação da balneabilidade piore, já que todo material depositado incorretamente nas ruas e córregos acaba chegando ao mar. Além disso, a contaminação da praia não necessariamente é feita pelo município litorâneo. No caso de Balneário Camboriú, há rios que trazem esses resíduos de outras cidades que não têm tratamento de esgoto para a praia – afirma.

Isso sempre foi real. Mas as manchetes de alguns colunistas locais forçam a barra no sentido de atribuir a poluição a um eventual mau funcionamento da Estação de Tratamento de Esgoto da Emasa, o que é uma mentira rigorosa. Ninguém pode comprovar com um mínimo de consistência esta afirmação. Nem Fatma, nem TCE, nem ARESC e muito menos os leigos da imprensa.

Alguns fatos lógicos:

1. A eliminação dos focos de poluição da orla, aqueles desprezíveis despejos de água pluvial contaminada por esgoto na areia da praia (mais de 40), retirados dali pela canalização proporcionada pela galeria de alta capacidade implantada na atual administração, reduziram em muito a possibilidade de comprometimento da água e da orla. Não há como acreditar que aqueles pontos continuem causando a mesma poluição de antes. É ilógico.

2. Antigamente, além do mau cheiro exalado nas madrugadas pelo esgoto não tratado e sentidos com mais expressão quando alguém chegava à cidade, simplesmente sumiu com o aumento da capacidade de tratamento da nova ETE, com uma eficiência máxima de 95% e picos mínimos de 86%, tecnicamente detectados.

3. Durante mais de 20 anos seguidos as deficiências do antigo sistema de tratamento jogavam de volta ao Rio Camboriú 60% de esgoto in natura, ou seja, com perdão da expressão, bosta pura. Mesmo assim, nunca, em dia algum, a balneabilidade ganhou contornos mais graves do que hoje. Supõe-se, aqui, algo errado: ou não é o tratamento deficiente que causa poluição principal da praia ou as análises contêm falhas graves – ou são mentirosas. Neste caso, mentiam no passado ou mentem agora. Falhavam no passado ou falham agora.

4. A Fatma poderia abrir a caixa preta das análises anunciando dia e hora em que fazem as coletas – nos 14 pontos existentes na orla de Balneário Camboriú. Em princípio, algo a pensar e somando-se as análises daqui com a de toda a orla catarinense, a pergunta é se a Fatma está com tanta gente assim para fazer essas coletas semanais, já que, em passado recente, nem gente tinha para analisar simples projetos ambientais de construções, a ponto de pedir a designação de pessoal emprestado pelo Sinduscon de Balneário Camboriú para ajudar na tarefa. Na época, mais de mil projetos estavam represados pela falta de análise. Não dá para imaginar que tenha melhorado muito. Então quer dizer que falta quem analise projetos de construções e sobra gente para fazer análises nas praias?

5. De qualquer maneira as declarações do diretor de proteção de ecossistemas comprova que não é a deficiência da ETE que causa isso, ainda que essa deficiência fosse verdadeira – e não é. Se não influiu no passado quando era deficiente mesmo, não pode influenciar agora quando a deficiência é mínima.

Enfim, a simples leitura de uma crítica não informa nada. Pelo contrário, pode desinformar ou tentar desinformar. Acredita quem quiser.

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(As imagens anexas são dos antigos despejos pluviais na areia da Praia Central, carregados de dejetos de esgoto em função de ligações irregulares - despejos eliminados em definitivo pela galeria de alta capacidade implantada pela atual administração ao longo de toda a Avenida Atlântica e que, rigorosamente, limparam a praia desses focos lamentáveis, verdadeiro atentado ambiental e vergonha de todos ao longo de muitos anos)