Direitistas e esquerdistas no poder

Entre o trágico e o cômico, os episódios envolvendo o impeachment da presidente Dilma é sucedido por discussões e fatos lógicos e estapafúrdios a um só tempo.

Enquanto isso, o PT, enquanto se pretende um partido coeso, anuncia a debandada de 26 dos seus 57 deputados federais originalmente eleitos em 2014. Enquanto isso, o governo, à busca de escapar do impeachment na Câmara, caça deputados pelos cantos. E dos 304 da base aliada eleitos com Dilma em 2014, não consegue reunir 172 para impedir o processo. Algo está muito errado ou tudo está muito errado: com todo o poder nas mãos, entre cargos, muitas verbas, ministérios e grana viva nas mãos de deputados votantes - mais a presença de Lula como intermediário -, nem assim o governo consegue reverter, ao menos por enquanto. Será uma semana agitada e nervosa.

Ao redor, pululam estratégias. Pesquisas oportunísticas são mostradas, apresentando reversão de expectativa e de uma forma contraditória: afirma-se que Sérgio Moro e Eduardo Cunha, nessas pesquisas, decaíram na aceitação popular porque foram denunciados. Lula, o governo e Dilma, ao contrário, teriam sido prestigiados pelas mesmas razões - no caso dos adversários, por aceitação de sua criminalização; no caso dos governistas, por comiseração ou pelo reconhecimento de uma pretensa capacidade de reação "democrática". Acredita quem quiser. 

O PT se perde pelas obviedades argumentícias dos seus defensores - na repetição fastidiosa dos jargões e mantras de "ódio", "golpe", "coisa do PIG", "coisa da Globo", "coisa da direita reacionária".

Quanto à direita reacionária, é preciso tomar cuidado. Ela cresce a olhos vistos na América Latina. Vide resultados na Argentina, na Bolívia, na Venezuela e agora no Peru. E, claro, este momento no Brasil.

E vem então a pergunta: por que a direita cresce? Na verdade só há uma resposta: a direita nem tanto cresce; a esquerda é que, no poder, falha profundamente ao não saber o que fazer ou por não fazer direito, por não cumprir o que prometeu e não conseguir realçar seus predicados tão insistentemente preconizados - como justiça social, recuperação econômica, saúde e educação de qualidade, segurança, saneamento e bom emprego do dinheiro público. E, claro, a roubalheira desenfreada. Com todas essas nuanças, a direita ocupa o espaço da insatisfação popular, que é mais forte, neste momento, do que os ditames da prática esquerdista. 

Nada é mais semelhante a um direitista do que um esquerdista no poder.