A saga do Ruth continua

Sobre o Hospital Ruth Cardoso e a atual discussão sobre ele e suas condições, disse o especialista Celso Dellagiustina:

Desafiado que fui pelo meu amigo Leocádio S. Giacomello para falar como especialista sobre a situação do HMRC de Balneário Camboriú fruto de embates políticos em épocas eleitorais, ouso a emitir as seguintes opiniões:

Tivemos a oportunidade de acompanhar o nascedouro deste hospital e como tal verificar que ele apresentava uma série de erros tecnológicos a ponto de desaconselharmos o então prefeito Rubens Spernau a não construí-lo, por várias razões:

a) O hospital não apresentava o perfil epidemiológico necessário para atender as necessidades de média e alta complexidade da cidade e da região. O hospital foi projetado para resolução de problemas de baixa complexidade .

b) O projeto do Hospital não contemplava um pronto socorro que pudesse atender a demanda da população e muito menos de equipamentos para diagnósticos de patologias de maior complexidade.

c) Apresentava apenas duas salas cirúrgicas e uma terceira para pequenas cirurgias, o que é considerado muito aquém das necessidades de uma região de 200.0000 habitantes.

d) Não apresentava Unidade transfusional (de Sangue)

e) Vários outros erros estruturais em desacordo com a RDC 50 da Anvisa, que resultaria na dificuldade de se conseguir o alvará sanitário.

Mesmo com estes erros maiores, decidiu-se pela construção do projeto inicial.

Tentamos durante a construção, junto com o arquitetos da região, fazer as correções necessárias, mas não conseguimos. Parecia que a Dra. Daysi mantinha sua posição inicial, ela que não detinha nenhuma experiência como gestora da saúde e de conhecimentos do SUS.

Depois de pronto (da maneira original) fomos contrários à abertura do hospital como hospital porta geral de entrada. Fomos da opinião que ele poderia assumir só parte das necessidades da cidade, especialmente o setor Materno Infantil, e que fosse um Hospital de portas fechadas,servindo como suporte para os hospitais maiores da região (HMKB e Hospital Santa Inês). Apresentamos um projeto através do então Deputado Volnei Morastoni ao Prefeito Edson Dias do fluxo deste funcionamento e que o isto representaria 600 mil de despesas a menos por mês ao município. Também não foi aceito. Durante estes oito anos de mandato a maior reivindicação era a regionalização do hospital e sua passagem para o Governo Estadual. Seu hospital gêmeo em Biguaçú com os mesmos defeitos foi regionalizado, recebe verbas federais e estaduais, é porta fechada e mesmo assim, embora inaugurado e conduzido por uma Organização Social, não consegue dar atendimento à população.

A experiência de comando do Hospital Ruth Cardoso com organização social já foi desastrosa no seu início e vários outros casos no Estado, não se apresenta como uma boa solução.

Voltar a insistir nesta fórmula de administração seria o mais correto?

Ou poder-se-ia pensar em outras formas de administração: Fundações Públicas de direito Privado? Associações sem fins lucrativos sob regime de Comodato (a exemplo do HMKB, hospital regional do Oeste, entre outros?)

Como vencer as barreiras que levem a uma maior eficiência e eficácia do hospital?

E volto aqui a insistir na Gestão de Saúde que se dedique a uma boa atenção básica com resolução de 70%.
Uma reestruturação da gestão hospitalar com participação da sociedade civil organizada também me parece um das soluções para o problema.

O problema do HMRC é crônico. Precisam os políticos e gestores de Saúde sentar-se e, independente de posições e aproveitamentos para fins de trampolim políticos e de partidos, acharem soluções de gestão que possam melhorar o funcionamento da Saúde em Balneário Camboriú.

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Na postagem, comentei, também provocado pelo Leocádio para opinar sobre o que disse o dr. Celso:

Já conversei algumas vezes com o dr. Celso Luiz Dellagiustina sobre o assunto. E continuo achando a mesma coisa:

1) Foi um erro construir o HMRC da forma como foi. Sua inviabilidade estava evidente desde o início.

2) Abri-lo, sob a pressão formidável que produziram em cima do atual prefeito com o fito de induzi-lo a erro, não foi a melhor decisão. Na verdade, ele deveria ter resistido e evitado abri-lo com as portas abertas, como disse o dr. Celso.

3) Concordo com o dr. Celso Luiz Dellagiustina. Não poderia discordar.

4) Agora é buscar uma gestão eficaz. Se tiver que ser mediante modelo de concessão ou terceirização de parte de suas funções, que se faça. E isto parece ser inevitável ou se tornará inviável.

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Noutro lado, repito: o Ruth foi “inaugurado” na última semana do governo Spernau, em 2008, já com o novo prefeito eleito. Inaugurado, entre aspas, sem sistema de esgoto, sem quadro de pessoal, sem sistema de gestão definido, sem entorno e, mais ainda, com todos os senões apontados acima pelo dr. Celso Dellagiustina.

Para afamados planejadores, foi uma torrente de incapacidades demonstradas a olho nu e de forma crua e cruel. Jogaram a bomba pra frente, sabendo de sua inviabilidade.

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Mais adiante, já em 2010, também nos derradeiros três meses do mandato do governador-tampão Pavan, anunciou-se a liberação de R$ 14 milhões para a manutenção do Ruth Cardoso. Notícia furada e sabidamente furada: não havia recursos orçamentários no ano seguinte para sustentar a promessa e se sabia disso. Foi um engodo monstruoso, gerando uma falsa expectativa. E, ainda depois, o dinheiro nunca pousou na conta do hospital ou da prefeitura, porque Colombo se omitiu o tempo inteiro e até hoje.

E desde então, toda a responsabilidade do hospital passou para a administração municipal, com a agravante de segurar as pontas das deficiências mórbidas dos atendimentos deficientes e até inexistentes em municípios vizinhos, principalmente Camboriú. Fato relegado a plano inferior ante a sanha de culpar a administração de Balneário Camboriú.

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Finalmente – e não vou entrar no mérito e nem dar garupa para essa briga -, numa tréplica ao prefeito, o candidato Fabrício cita números discutíveis. E teoriza que se Balneário Camboriú estivesse na Amfri seria atendido. Ele escreveu: “Precisamos compreender o motivo de Balneário Camboriú não interagir com a AMFRI, mesmo sabendo da existência do Consórcio intermunicipal de Saúde (CIS). Com este consórcio nosso município teria uma economia de até 51,35% na realização de exames. Dessa forma, poderíamos atender nossa população que vem sendo sufocada pela irresponsabilidade de nossos gestores, que há anos fazem papel de espectador do sofrimento de milhares de pessoas que aguardam por uma consulta ou exame.”

E então qual a razão de os demais municípios da Amfri, exceto Itajaí, estarem até fechando hospital e reduzindo atendimentos da saúde e jogando tudo para o Marieta e o Ruth? Como funciona, afinal, esse Consórcio Intermunicipal de Saúde? É para todos os municípios ou só para Balneário? Se é um negócio tão bom assim e funcional, por que não resolve as pendengas da saúde das demais cidades, que se agravam a cada dia?

É demais pra minha cabeça...