Bilhetinho para Fabrício e Carlos Humberto

Olá. Bom se prepararem para demandas complicadas. Tipo querer e não conseguir porque não depende de suas vontades ou esforços, mas da vontade e dos esforços de outros, que nem querem muito saber se isto causa ou não danos à cidade e à sua gente, muito menos ao seu governo. E muitas vezes não apenas isso e sim também de condicionantes técnicas e legais de contorno complicado, como as das áreas de saneamento, saúde e mobilidade urbana.

Tipo ficar otimista com uma promessa do governo do Estado, confiar e ver, lá adiante, que não se cumpre nada e vocês terão que assumir os compromissos sozinhos. Com ou sem recursos.

Quando o governo do Estado prometer, descontem 90% ou mais e aguardem. A possibilidade de falhar é enorme. E aí terão que sair nas ruas e na imprensa a explicar isso e aquilo, o por que não deu pra fazer e o pau cantando no lombo. E vocês se achando injustiçados. Ninguém terá pena. O pau continuará cantando.

Verão que projetar qualquer coisa, serviço ou obra, depende de licitação, de buscar o melhor preço. E a cada recurso de um participante atrasará o tempo projetado e os prazos vão embora, sem dó e nem piedade. E verão, vejam só, que os preços colocados pelos concorrentes nas licitações não são os mesmos do comércio convencional. Por vezes, na bodega da esquina pode até custar mais barato, mas a regra não é esta. A regra é licitar. Com regras e valores lá estabelecidos previamente. Na bodega da esquina não dá pra comprar direto.

Gostaria de vê-los encarando a liberação das LAPs, LAIs e LAOs. Ficarão atordoados com todas as condicionantes colocadas, uma após outra. Para dez cumpridas, mais dez são acrescidas e assim vai. Não é por menos que isso que o sistema de tratamento de esgoto da cidade está sem a LAO (Licença Ambiental de Operação) desde a sua implantação, há 40 anos.

Adoraria vê-los ter sucesso na recuperação do Canal Marambaia. É triste a situação. Verão que não é apenas chegar ali, aplicar isto ou aquilo, canalizar ou obstruir saídas de esgoto de prédios construídos ao longo do trajeto – muitos antiquíssimos e se mexer neles para criar sistemas próprios terão que ser quase destruídos totalmente. E então verão que é inviável.

Solução tem. Terão que encontrar. E verão que a equação é complicada, mais do que apenas desejar e achar que é possível.

Verão, em todos os momentos, que há setores insaciáveis na cidade, querendo mais pra si do que para a cidade em si. Cada um por si e Deus por todos. Farinha pouca, meu pirão primeiro. E terão que dizer muitos “nãos”. E sentirão o bafo quente da insatisfação injusta podando suas iniciativas.

Essa cidade e sua gente, em muitas ocasiões, são contraditórias: queriam a ciclofaixa na Atlântica, depois não queriam, depois criticaram o seu uso compartilhado. É capaz de quererem o retorno do estacionamento. Não duvidem.

Tanto como o caso do estacionamento rotativo. Ao ser implantado, choveram críticas contra. Tiraria vagas do comércio, diziam. Pois bem, estamos sem o estacionamento rotativo e, vejam: o próprio comércio está querendo o seu retorno. E, pasmem, pela mesma razão: garantir a rotatividade das vagas, pois os motoristas estão estacionando e deixando seus veículos ali o dia inteiro, já que não há qualquer controle. Bem feito. A língua é o chicote da bunda. Acostumem-se também com essas contradições.

Há muito mais. O funcionalismo vai exigir, em certos momentos, muito mais do que o governo pode dar, por causa dos limites orçamentários. Mesmo assim, o pau vai cantar. Não se sintam injustiçados – o jogo é este mesmo. Só sentirão a realidade de quem está no poder e muitas vezes precisando apenas cumprir a lei, sob pena de responsabilidade.

E verão, na área da saúde, que todos os bons atendimentos realizados são esquecidos ou ninguém deles se lembrará ou fará referência. É obrigação, é o trivial, o corriqueiro. Mas no primeiro caso de desatenção ou falha, ainda que involuntária ou causada por carência ou falha de outros - governo estadual e federal, por exemplo, que não repassam dinheiro -, novamente o pau vai cantar e ninguém terá pena. E não adianta explicar. Explicação é pro leiteiro.

O Hospital Ruth Cardoso, verão também, é um lugar onde qualquer deslize, por menor que seja, por motivo de força maior ou por falha mesmo, causa um reboliço acima da média. E não adianta explicar. Explicação é pro leiteiro.

E todos quererão a cidade muito limpa, sempre. Qualquer saco de lixo colocado na rua, ainda que por culpa de quem coloca, será a prefeitura – vocês, em derradeira instância – a culpada. E o pau vai cantar. Não se sintam injustiçados – o jogo é este. Apenas verão que pau que dá em Chico também dá em Francisco.

Semana que vem mando outro bilhetinho. Este foi de estreia. Aguardem.