Os detalhes do papo com Edson Kratz

Uma conversa ditada pelo acaso saiu melhor que encomenda.

Edson Kratz e eu, soltos numa sala em que ele saiu pra espichar as pernas (muito tempo sentado discutindo transição de governo) e eu estava a aguardar apenas meu momento ideal pra qualquer coisa, engatamos uma conversa sobre perspectivas da cidade e ideias em discussão para serem aplicadas no futuro governo, do qual ele se apresenta como o principal protagonista, na qualidade de secretário de Planejamento e Orçamento.

Kratz é uma pessoa fluente e despachada nas suas exposições. Depois de falarmos sobre aspectos políticos e sucessórios, ele me falou off de records de coisas e coisas vividas neste momento. Nunca serão citadas e nem usadas. Trata-se de sigilo profissional, que sempre respeitei. Independente de quem e do que.

E então desfiamos muito de fatos e pontos, até que chegamos à discussão do que fazer com os espaços da cidade. E então ele me pediu um mapa – e a gente começou a discutir em cima de figuras geográficas de Balneário Camboriú. Foi muito proveitoso.

Primeiro, é impressionante o conhecimento detalhado, minucioso, quase milimétrico, que Edson Kratz tem da cidade. Tanto do seu território quanto de suas interferências – boas e ruins.

Centramos o papo na necessidade de programar-se, no tempo devido, o transporte coletivo integrado, rápido, eficaz. Com corredores de ônibus, mas, principalmente, com a mudança do estilo – adoção de veículos menores, como vans, para fazer um transporte alimentador de um sistema troncal. Quem sabe com a desejada integração entre os municípios, porém sem necessariamente aguardar por isso. Veículos menores fariam a circulação por todos os bairros, de modo a que sua passagem fosse a intervalos tão curtos quanto possível – por hipótese, de 15 em 15 minutos. Começando por bairros e/ou regiões onde a demanda é mais crítica atualmente.

Mas Kratz tem uma teoria forte: a cidade boa de andar a pé. Portanto, o privilégio do pedestre. E isto passa pela definitiva humanização e padronização das calçadas.

Pulmão da cidade

Noutro ângulo da discussão, o futuro secretário do Planejamento mostrou sua preocupação com a longa área existente acima do Ariribá, mata ainda densa e intocada e que, para ele, precisa ser urgentemente protegida contra eventuais ocupações. Para isso, é preciso conscientizar a cidade, o pessoal do asfalto e do concreto a entender que aquilo lá é importante para a sua própria sobrevivência. Ou ficaremos sem ar respirável no futuro não muito distante. Lá é o pulmão do centro urbano de Balneário Camboriú.

Invasões

Mas o básico das preocupações de Kratz são as cerca de 25 áreas de ocupação ou invasão, cujo descontrole pode comprometer para todo o sempre as possibilidades de crescimento e organização da cidade. Essas áreas estão por todo lado, piorando a cada dia. Muitas dessas áreas surgiram do quase nada e hoje são locais consolidados como núcleos carentes de quase tudo – segurança, água, luz, esgoto, urbanização. Muitas dessas áreas, inclusive, irregulares quanto à definição de propriedade.

O receio é que, como está ocorrendo ultimamente em Camboriú, estas áreas passem a ter sua ocupação orientada por pessoas sem qualificação e/ou intenção nada convencional de convivência, digamos assim e para ser leve. Os exemplos se multiplicam – inclusive até em projetos do Minha Casa Minha Vida, que são construídos e traficantes dominam expulsando seus verdadeiros ocupantes. Aconteceu em Florianópolis recentemente, quando um proprietário foi morto por se negar a deixar sua própria residência para traficantes e em Criciúma, onde um núcleo inteiro foi ameaçado de expulsão para que traficantes se adonassem dos apartamentos. Em Itapema há um bairro inteiro nessas condições, dando um trabalho imenso e contínuo à PM para combater a criminalidade que grassa ali, pressionando os habitantes e disseminando o terror.

Kratz demonstrou preocupação intensa com isso. Mesmo porque a cidade não tem área rural e o território é pequeno demais. Tudo é muito perto.

Mas sabe o futuro secretário – e parece estar convencido e preparado para isso – que será importante investir em reais políticas públicas para estancar isso o mais rápido possível, ao invés de só reprimir e retirar. Reprimir e retirar será até inevitável em certos casos, mas não pode ser a única saída.

No mais, Kratz é adepto da teoria da janela quebrada e acha que essa lição precisa ser absorvida com força.

Deu uma boa esperança esta conversa espontânea.