Canal Marambaia, a desastrosa epopeia da cidade

Vamos falar um pouco de um dos mais cruciais focos de degradação ambiental da cidade – o Canal Marambaia. Deve-se abordar cada vez mais porque ele tem se constituído num foco de discussões políticas e sociais de entendidos e de não entendidos ao longo do tempo. Mais ainda, e o pior: sem qualquer resultado prático. Continua fedendo, o esgoto continua fluindo nas suas águas e a cidade continua pagando o alto preço.

Todas as administrações usaram o Canal Marambaia como mote de suas campanhas. Em algumas dessas administrações, inclusive, mais construções surgiram jogando nele seus dejetos. Direto, sem curvas ou vergonha. Fiscalização não funcionou, nem na prevenção, nem na repressão e muito menos na aprovação dos projetos das construções – sempre validadas sem restrições ou exigências. Dentre as quais a principal – o destino do esgoto sanitário.

Fatos: há soluções plausíveis, tecnicamente falando – embora caras. Mas o que é caro nessa concepção de eliminar um dos tormentos principais da cidade? A relação custo/benefício paga com sobras.

Na administração do prefeito Piriquito iniciou-se uma discutível canalização. Enfim, esconder o canal. A obra começou e parou por vários questionamentos – da sociedade e dos agentes financiadores, no caso da CEF.

Isso não apontou a sua despoluição ou recuperação, mas apenas escondê-lo. Jogar pra baixo do tapete, traduzindo em letras adequadas.

Depois, houve uma vistoria destinada a identificar os pontos de despejo ao longo do canal. E a conclusão foi de existência efetiva de dezenas desses pontos e da impossibilidade de corrigi-los, pois decorrentes de construções antigas e “imexíveis”, por assim dizer. Tudo porque qualquer adaptação requereria quase a destruição da arquitetura dos prédios, para fazê-los ligar-se à rede geral. Por  isso ficou inviável.

Depois, sonhou-se com a implantação de uma tubulação por dentro do canal e ao longo do trecho abrangido pelas ligações indevidas. Demandaria uma licitação e um custo alto. Ainda aqui, a indagação: a relação custo/benefício valeria ou não a pena?

Ainda mais adiante, já em 2016, sonhou-se com uma tecnologia de tratamento por zona de raízes. Algo como um tratamento natural para evitar o mau cheiro e reduzir os efeitos poluidores. Ficou na teoria e nem chegou ao papel como proposta material efetiva. Apenas croquis e mapas. Em 2015, tentou-se demonstrar que lacrar as saídas (seriam 45, por pura coincidência) era uma solução. Não era, não foi e nunca será. Seria apenas uma forma de mostrar o que já se sabe: há ligações clandestinas. Não é solução porque o problema continua e é impossível lacrar 45 saídas (se este é o número) sem uma consequência talvez tão desastrosa quanto mantê-los.

Afinal, todas as administrações mostraram-se mais perdidas do que cachorro em procissão. Tentando adotar formas, algumas até corretas ou únicas – como a tubulação por dentro do canal para captar os dejetos e levá-los à ETE.

Parou no caminho da teoria à prática. Então agora temos que apelar à nova administração, não como crítica, mas como exigência de dar um caminho à solução. É sua obrigação. E que não seja mais uma fieira de conversas e ações sem objetivo.