Os bastidores superam os fatos e os votos

As articulações políticas por detrás dos panos, nos gabinetes, nos corredores, nos restaurantes, nos hoteis, superam os possíveis entendimentos de plenário e das comissões, na atuação do legislativo federal. Em grau menor, isto também ocorre em Assembleias Legislativas e em Câmaras Municipais. Na Capital Federal os acertos devem unir a maioria de votos de 513 deputados e 81 senadores. Isto é tanto mais complicado quanto maiores forem os interesses em jogo - e geralmente, como os interesses são díspares em seus fundamentos e objetivos, a situação pode chegar a tensões máximas, também por causa da atuação de instituições representativas envolvidas nas consequências do que vai a voto. Casos emblemáticos: reformas trabalhista e previdenciária.

Regra geral (os líderes e donos de votos agem assim) tudo é ajustado antes. E o combinado reflete no plenário. Às vezes há uma certa arrogância e, por isso, situações se criam. A votação da urgência na tramitação da reforma trabalhista é um exemplo. O presidente Temer, quem sabe mal aconselhado, achou que as favas estavam contadas e, numa primeira votação, perdeu feio. Não conseguiu aprovar. Numa segunda votação e no dia imediatamente posterior, venceu por ampla maioria. Os bastidores resolveram. Sabe-se lá a que custo, mas resolveram.

Os comandantes de grupos partidários, como Renan Calheiros, têm força por causa disso. Eles dominam um volume possível de aprovação ou rejeição na hora em que bem  entenderem. Não importa se a causa vem de um apelo popular forte ou não. A PEC sobre abuso de autoridade, em que se restringe e criam punições a juízes e promotores (este é o objetivo claro, para proteger, como disse Renan em discurso esta semana no Senado, "os políticos do bem") e autoridades em geral por decisões inconformadas por acusados é um exemplo. Renam e Requião defendem com força a sua aprovação, embora a esmagadora maioria da população seja contra. Inexiste clima para a aprovação, mas clima é o que menos importa aos senadores e deputados. Vale o corporativismo. Bom lembrar que, em 2005, o povo decidiu contra o desarmamento em plebiscito e o desarmamento foi estabelecido por lei.

Viver nos corredores e bastidores, vendo e ouvindo o que se decide e o que se objetiva vale por uma pós graduação em como agir ou não agir em política. E, por mais indecente ou indevido que seja ou pareça, é assim que funciona. E quem não se enquadra, infelizmente fica pelo meio do caminho.