BC e o ufanismo do maior

Matéria da revista Veja desta semana registra Balneário Camboriú como uma meca de edifícios altos: quatro dos dez mais altos do Brasil estão aqui.

E assim, alguns se ufanam e outros se preocupam. As discussões, de um lado a outro, medeiam entre o susto e a incerteza quanto ao futuro. Isso mais ajuda ou mais atrapalha, se considerarmos perspectivas futuras?

Isto já passou, passa e passará por muitas discussões, ainda. Estamos na fase, inclusive, de adaptação do Plano Diretor, o que, a nosso ver, não resolve muito, pois não impedirá a disseminação desses espigões. A questão reside é na capacidade da cidade de resistir ao sufoco do futuro, quando as exigências por espaço aumentarão, ao lado de expectativa por mais e melhores serviços ao cidadão. E também porque as áreas nobres estarão saturadas. Apela-se a quem entende disso, os especialistas que estão por aí: isto será bom ou ruim, mantida a atual conjuntura de primazia da construção civil? O momento de exaustão não está distante. Talvez os espigões sejam os últimos suspiros, na pretensão de espetaculares apelos comerciais, misturados a um pouco de vaidade e orgulho empresarial.

Auscultando um pouco da história do Rio de Janeiro e de Florianópolis, podemos usá-la como paradigma: a Cidade Maravilhosa era a meca e desejo de quem se permitisse um local de excelentes qualidades, a partir do turismo de ponta nacional. Hoje, vê-se no que se tornou, embora ainda bela.

Florianópolis  foi decantada há não muitos anos como a cidade de melhor qualidade de vida do Brasil, mostrada como uma cidade quase perfeita para morar. Ainda é bela e desejável, convenhamos, mas a violência que a domina, a mobilidade urbana altamente comprometida e outras mazelas sociais e econômicas – como a perturbadora sanha de eliminar os beach clubs e tudo o que fez a cidade mostrar-se lá fora e atrair turistas gastadores, o empedernido poder dos que brigam contra marinas numa terra cerca de mar (e conseguem impedir) e o seu sistema de transporte ainda insuficiente e ineficiente. Até porque depende de uma circulação de mais de 200 mil pessoas por dia em suas pontes.

Balneário Camboriú também registrou fama de principal destino turístico do sul do Brasil, nominada “Capital Catarinense do Turismo”, anseio de brasileiros e estrangeiros – mas já perdendo alguns dos seus encantos, como a noite da Barra Sul, antes apoteótica e hoje resumida a bons bares, é verdade, mas sob o controle de sons e barulhos numa região que se tornou área residencial por excelência, por causa de uma mudança de gabaritos e uso da região no Plano Diretor. Tiro n’água.

Ainda é, esta cidade, um recanto esplendoroso. Porém, já com percalços causados pelo gigantismo. Agravado pelo fato de possuir um território limitadíssimo e concentradíssimo, urbanisticamente falando. Coisa que impede uma razoável política de transportes urbanos que evite as tranqueiras em dias normais, em feriadões – e nem se fala da temporada, quando é complicado até andar a pé.

Por isso o ufanismo dos espigões deixa espaço para um bom debate. É disto que precisamos? É este o jogo do futuro ou precisamos buscar, antes e acima, alternativas para uma melhor convivência humana, um melhor saneamento, uma nova matriz econômica? Porque, se permanecermos nessa balada, sem termos alternativas econômicas fortes para garantir mão de obra aos residentes, poderemos enfrentar, com a saturação inevitável da construção civil (e acontecerá), uma nada agradável situação social. Quem viver, verá.