Os governos e as peças de ficção

Diz um ditado de política: nada é mais parecido com um direitista do que um esquerdista no poder. Ou: o poder é um violino - pega-se com a esquerda e toca-se com a direita. Isso serviria para os governos brasileiros ao longo desses tempos e de outros tempos.

Mutatis mutandis, também ocorre com oposições e situações enquanto se alternam no comando de administrações, prefeituras inclusive. Caso típico de Balneário Camboriú. Lendo-se o programa de governo dos candidatos registrado na Justiça Eleitoral, vê-se ali muitos compromissos assumidos que, sabe-se, jamais serão cumpridos. São peças de ficção. Lá dizem sabendo que não cumprirão.

No caso de Fabrício, colocado foi que valorizaria os servidores efetivos, colocando-os, com alta preferência, nos cargos de confiança do governo. Alardeou inclusive um cadastro para isso. Jamais usou. E jamais usará. A multiplicidade de interesses é por demais gigantesca. Não só de partidos, mas de financiadores e articuladores de sua campanha. Alguns até de fora do Estado.

Agora vem essa da proposta de recuperação dos salários dos servidores de 2,8%. Por isso os servidores estão em "estado de greve" seja lá o que isso signifique ou resolva. Noutros governos, já estariam batendo panelas, portando faixas e cartazes e berrando na frente da prefeitura, exigindo audiência com o prefeito e ameaçando paralisar tudo. E até paralisando. E por índices muito maiores do que este, alguns até de mais que o dobro. 

O governo alega dificuldades orçamentárias, arrecadação insuficiente. Só não fala do inchaço da máquina, sempre atribuído ao governo anterior. Só não o reduz, começando pelas centenas de cargos comissionados e pela geração de novas despesas evitáveis. Além disso, é um quadro que, se analisado no curso da campanha passada e depois da vitória, na transição muito bem feita, não deveria ser surpreendente. Se isto não ocorreu, alguém foi muito incompetente. E, pelo jeito, continua sendo. Detalhe: nunca nenhum prefeito se lamentou de déficit orçamentário, na história mais recente.

Governar não implica em ficar jogando culpas pra trás por defeitos ou malfeitos fartamente avaliados e conhecidos. Governar implica em assumir de verdade e ir corrigindo a rota, aparando as arestas, eliminando os excessos, organizando as contas, harmonizando o quadro. E, cá pra nós e que ninguém nos ouça: mantendo os mesmos tributos. Porque como estão fazendo - tentando resolver buracos de orçamento com mais imposto até criança de creche faz e sem nenhuma nova ideia.

É sempre bom alertar: a campanha já acabou. E um ano já se foi.