A (in)precisão das pesquisas eleitorais

No Brasil, não é incomum encontrarmos grandes diferenças entre as pesquisas eleitorais e os resultados finais dos pleitos. Por exemplo, na última eleição para prefeito de São Paulo, o Ibope divulgou na véspera das eleições que o então líder das intenções de votos, João Dória, tinha 35% dos votos válidos. Um dia depois dessa divulgação, Dória foi eleito com 53,1%.

A grande magnitude da diferença vista nesse exemplo chama a atenção, mas ele não é caso único nem de longe. Pelo que se lê nas redes sociais, há uma percepção de que é relativamente comum termos resultados eleitorais bastante diferentes do que as pesquisas indicavam. Será que essa percepção encontra respaldo na realidade? E se sim, qual o tamanho dos erros que os principais institutos de pesquisa cometem?

As pesquisas costumam ser divulgadas acompanhadas por uma frase mais ou menos assim: “a margem de erro dessa pesquisa é de três pontos percentuais para mais ou para menos, com intervalo de confiança de 95%” (a margem de erro pode ser outra, como dois ou quatro pontos). Essa frase nos diz que se uma pesquisa diz que o candidato A tem 30% das intenções de votos numa pesquisa, ele pode ter entre 27% e 33%, mas é pouco provável que ele tenha 25%.

Analisando pesquisas e resultados de eleições dos últimos três ciclos eleitorais – 2012, 2014 e 2016 -, vemos indícios de que a margem de erro normalmente indicada pelos institutos (entre 2% e 3%) é, na verdade, de 7,5% pontos percentuais para mais ou para menos. Para chegar a esse número, comparamos o desempenho de cada candidato em pesquisas de boca de urna ou divulgadas nas vésperas de 73 pleitos para prefeito, governador e presidente (tanto de primeiro como de segundo turno) com os resultados observados nas urnas.

Essa margem de erro implica que o intervalo no qual a real pontuação dos candidatos se encontra é de 15 pontos, ao invés dos usuais 4 ou 6, o que coloca em cheque a precisão das pesquisas. De fato, apenas 54% das pesquisas com margem de dois pontos e 71% das pesquisas com margem de quatro pontos acertaram suas projeções. Ou seja, as pesquisas ficam (muito) longe dos 95% desejados.

É verdade que parte dos votos só é decidida no momento em que os eleitores caminham para a urna, então não é tecnicamente correto chamar toda a diferença entre as enquetes de véspera e os resultados de ‘erro’. Também se deve notar que nosso exercício não é exatamente o mesmo que a teoria prevê: quando se diz que o intervalo de confiança é de 95%, isso significa que se 100 pesquisas fossem feitas naquele momento, 95 delas deveriam ter resultados com diferença dentro da margem de erro reportada e que a diferença entre o total da população e o que aponta a pesquisa se dá apenas pela aleatoriedade da amostra pesquisada.

Nós não fazemos repetições das pesquisas e há diferenças (pequenas) do momento em que a pesquisa é feita para o momento em que o voto é computado. De qualquer modo, como temos um número razoável de observações, esperávamos um comportamento mais próximo ao que a teoria prevê. Então, nas próximas eleições, não desanime se seu candidato estiver 5% ou mesmo 10% atrás do adversário: há uma chance considerável dos números finais da eleição serem bastante diferentes.

(Eduardo Zylberstajn, Matheus Rezende Dias e Raone Costa)