O que queremos improvisar, já tínhamos ao natural

Lá atrás, bem atrás, no recôndito da época e nas brumas do tempo, havia o Rio Marambaia e lagoas espraiadas ao longo da orla de Balneário Camboriú. Onde estão a Praça Tamandaré e o Shopping Atlântico eram lagoas. Sem peias, sem pejo e sem espasmos de falsas virtudes, avançaram sobre seus leitos, aterraram tudo e construíram em cima avenidas e espigões. Houvesse respeito à natureza, imagine-se hoje como seria a cidade - mais bela e natural, arborizada ao longo do rio e cheia de lagoas para entretenimentos ou mero lazer. Com qualidade. 

Nossa orla era protegida por vegetação natural. Invadiram tudo, podaram tudo. O Rio Marambaia virou um canal fétido e perdido, a orla virou um recanto desumano e exíguo. E então querem expandir artificialmente. Dissemos aqui: a cidade avançou sobre a orla, não o mar. Não culpem a maré por essa insensatez dos tempos, por favor.

Quando se justifica a teórica justeza de quem garante não desejar perverter os espaços gerados pelo eventual alargamento da areia - oh, medo inevitável! - recorda-se o aterro hidráulico da Baía Sul em Florianópolis, a fim de se construir a Ponte Colombo Salles, em 1970. O aterro foi projetado para ser um local de lazer, arborizadíssimo, com ideias contratadas do gênio Burle Marx. Imaginem o que seria. O correr do tempo demonstrou a insanidade temida: ali fez-se de quase tudo: Terminal Rodoviário, Terminal Urbano, pátio de manobra de ônibus, estacionamento público pago e, suprema inépcia, uma estação de tratamento de esgoto da Casan. Antes disso, lembramos bem, a ideia era construir ali uma subestaçãõ da Celesc. Houve recentes discussões sobre o Ministério Público Federal (salvo engano, mas se não foi ele, foi outra entidade congênere) construir ali um conjunto de torres para a sua sede. Burle Marx, coitado, revirou-se no túmulo.

Por que estamos mostrando isso? Para dizer que o que se promete e se projeta, na fantasia do convencimento, nem sempre se realiza. E o desastre acontece, com arrependimento tardio. A previsão inicial era se construir prédios mais altos a partir da segunda quadra. Mas ninguém cumpriu. E então temos o paredão de sombra na orla porque alguém furou e alguém permitiu que furassem o projeto inicial.

Sobre engordamento da faixa de areia, os argumentos justificadores são infantis: acabar com sombreamento, aumentar o fluxo de turistas, permitir espaços para a prática de eventos artísticos, culturais e esportivos. Cada bobagem que chega a doer. Tudo isso hoje não tem a menor influência no turismo, nem pra mais e nem pra menos. Nem faixa de areia atual, nem sombreamento e nem falta espaço para nada. Se usar o que tem, é possível fazer tudo isso, sem mistérios.

A natureza já tínhamos lá atrás: rebentaram com tudo em nome da ganância e da especulação. Geraram dutos de poluição violenta da praia e agora querem amenizar a um custo incalculável. Tudo o que veio ou virá depois disso, é puro remendo, com suas consequências danosas. E efeito praticamente zero.

Dizia vovó: "Estão inventando moda" ou "formiga quando quer se perder, cria asas".

(FOTOS: ARQUIVO HISTÓRICO E ACERVO DE ISAQUE BORBA CORREIA)