O lamentável desejo de não votar

É muito difícil dizer isso, principalmente quem jamais deixou de cravar o voto em nomes, em todas as eleições, desde 1963, no plebiscito decisório entre presidencialilsmo e parlamentarismo. Votei no presidecialismo, induzido por fatores da época e vinculações com pessoas ligadas ao PTB e a Jango - como o meu irmão Aryovaldo e Doutel de Andrade, secretário particular do ex-presidente e líder do partido em nível estadual e nacional.

Sempre fiquei imaginando as consequências, para o país, se o parlamentarismo houvesse prevalecido à época. Provavelmente não teríamos vivido a tomada de poder pelos militares e a história toda seria escrita de forma diferente. E nada disso que vivemos hoje seria realidade.

As desilusões se multiplicaram ao longo do tempo e nem tanto pela supressão de eleições ou as intervenções dos militares na ordem jurídica através dos Atos Institucionais - 17 ao todo, editados sempre que algo ameaçava o regime, sendo o mais rigoroso deles o AI-5, de 13 de desembro de 1968 - e sim pelos erros cometidos a partir da volta das eleições diretas e da "normalidade" democrática.

Comentei dia desses para alunos da Unesc, de Criciúma, em entrevista sobre os 50 anos do AI-5, que os governos militares promoveram o obscurantismo político cassando ou apagando lideranças expressivas da política nacional, quando estas ameaçavam sua hegemonia. As que sobreviveram, no retorno via anistia ampla, geral e irrestrita, como Ulysses, Brizola e Mário Covas, concorreram à presidência na primeira eleição livre do pós-militarismo (1989). Eleger um deles poderia ter sido a manutenção da normalidade da vida política e institucional brasileira, mas o povo preferiu um aventureiro, Fernando Collor de Mello. Que disputou com Lula, liderança surgida à margem do regime militar e cria deste próprio regime, segundo registra Romeu Tuma Júnior no seu livro "Assassinato de Reputações". Segundo Tuma, o personagem Lula, sindicalista líder dos movimentos de trabalhadores no ABC paulista, promovia greves a soldo dos empresários, interessados em crises artificiais para impor suas regras e, está escrito lá, dedurava companheiros aos milicos.

Collor foi o que se viu e a sequência desastrosa para a nossa democracia se mostrou por inteiro. Lula acabou presidente eleito e reeleito, indicando à sua sucessão Dilma, também eleita e reeleita e depois derrubada por impeachment.

Agora estamos aqui, amargando dissabores resultantes de toda essa porcaria gerada pela volta à democracia, graças à submissão de todos nós a um sistema corrupto, praticado por governos corruptos e por uma deletéria e persistente ilusão ideológica de transformar o Brasil numa república socialista, cujos líderes também se perderam na corrupção deslavada e mancharam não só suas biografias, mas a história.

Dos votos todos dados no pós-democracia, errei gravemente. Daqueles em quem votei, só Fernando Henrique venceu duas vezes e no primeiro turno. Depois, todos os meus preferidos perderam. 

De tal modo que, hoje, penso usar a prerrogativa da idade e não comparecer à urna. Ou, se comparecer, anular ou votar em branco, contrariando todas as minhas filosofias de vida em relação a isso. Cansei.

As razões são por demais óbvias, na minha concepção pessoal: os candidatos que estão aí não fazem por merecer. Nenhum, na minha visão, reúne condições de resolver nada, ante as carências do Brasil e sua gente. Resumidamente, uma merda.

Já não sou vulnerável a sugestionamentos, como em 1963. A idade e o tempo me fizeram independente em minhas escolhas. 

O mal do Brasil é que o domínio dos partidos, dos grupos, das oligarquias políticas, das famílias, da plutocracia e a falta de lei e de ordem nos colocam num patamar de descaso com a própria Nação. De modo que ladrões, hoje, são privilegiados e estão sempre no poder. Com ou sem voto. 

A quem filosofa de que o voto nulo, branco ou abstenção favorece o mau candidato, digo o seguinte: os votos brancos, nulos e a abstenção, se depositados num ou noutro candidato, em qualquer eleição, mudaria seu resultado. Claro, se fossem para UM só candidato e não se diluíssem, na mesma proporção dos votos válidos, entre todos os nomes em disputa. O que daria no mesmo. Maus e bons candidatos sempre estarão por aí. A questão é: quais e quem são os bons? As últimas eleições confundem essa questão. Se foram os bons os eleitos, por que estamos nessa situação?

Aderbal Machado - Jornalista