O risco do turismo de R$ 1,99

Simone Castor, seguidora de nossas mídias sociais e participante do Grupo da Página de Aderbal Machado, formado para discussões sobre temas gerais de interesse público, escreveu sobre o que chama de riscos da banalização do turismo. E cita exemplos de como isso pode derrubar boas intenções e supostas ideias de gestão econômica.


Não sei como falar sobre esse assunto sem ser absolutamente sincera e direta.
Meu perfil não foi construído para politicamente corretos e cheios de melindres.
Então, vai lá.
Uma das principais etapas de um planejamento estratégico de uma empresa é definir quem é o seu público alvo.
Se a empresa não souber definir isso, já morreu antes de nascer.
Na década de 70, Humberto Saade fundou a Dijon, uma das marcas mais conhecidas e top of mind da época no Brasil.
Toda patricinha deveria ter uma. 
Ter uma calça jeans da Dijon era símbolo de status, pelo seu design inovador e pelo alto preço de aquisição.
Fez o maior sucesso e ainda lançou a top model da época, Luiza Brunet.
Faliu!
Faliu por que não definiu seu público alvo.
No afã de multiplicar seu lucro jogou sua mercadoria em volume em lojas populares e sacolões.
O que fizeram as "patricinhas", vendo este produto em lojas populares? Não compraram mais suas calças jeans. 
Virou produto de quinta e faliu.
Abriu mercado para a italiana Fiorucci!
A regra se aplica à gestão pública.
Que público alvo Gramado quer atingir? O público alvo que pode pagar caro por um almoço ou jantar nos nobres restaurantes da região ou aquele que permite ser assediado pela rede Laguetto e que está tentando transformar Gramado em uma Tijuana do México? O que a prefeitura de Gramado tem em mente permitindo essa banalização do turismo na região?
Alguns dirão: Simone, isso é preconceito com os pobres que querem conhecer Gramado. E eu digo: vão à merda.
Tem gerente de restaurante que só falta te puxar pelo braço, para entrar no estabelecimento dele.
Daqui a pouco o rico abandona Gramado justamente por que não querer ir para um lugar onde o assédio nas calçadas parece a praia de Canasvieiras no verão. Até índio vendendo arco e flecha nas calçadas eu já vi.
Gramado cresceu justamente por ser uma cidade atrativa, por sua organização, educação, limpeza, restaurantes bons, civilidade.
E por ter aquela carinha de Alemanha.
E agora está perdendo o charme.


A Suíça, por exemplo, está preocupada com o alto preço de seus hotéis e restaurantes e por isso banaliza o local para aumentar a rotatividade? Não. Ponto. Vai quem pode. Quem não pode se sacode.
Simples assim.


Brazuca é um sentimentalóide incorrigível, precisa aprender a lidar, encarar a verdade nua e crua e a parar de achar que o mundo deve se adaptar a ele e não ele ao mundo.
Simone Castor


Sobre isto, é possível citar alguns exemplos de qualificação: quando muitos hoteis fecham durante a baixa temporada para retornar na alta, quando muitos reclamam da queda de movimento e promovem campanhas ferozes de preços populares para se manter fora dos verões - os mais sofisticados continuam, sobranceiros e funcionando. Restaurantes caros, como Mundo Selvagem, Farol ou Madero, fora ou dentro das temporadas, tem sempre movimento e não se queixam, pois possuem qualidade de serviço e produtos permanentemente. São atrativos. 

O Infinity Blue, com seus preços lá em cima (em relação aos demais), está sempre fluindo. Nunca jamais alguém ouviu queixas desses locais.

Então quando se acha que turismo de R$ 1,99 resolve, vai-se à bancarrota e a qualidade vai lá em baixo, comprometendo todo o resto.