As precariedades do Ruth continuam

Muitas críticas populares ao atendimento no Hospital Ruth Cardoso continuam. Principalmente de pessoas de Camboriú, onde os atendimentos são precários. Dependendo do grau de atenção devido, demora mais ou menos. E a preferência recai sobre pessoas traumatizadas de alguma forma. Ninguém entende isso, até porque para cada um o seu sofrimento é maior do que os dos outros - o que entende é que a fila deveria ser única, o que é impossível até por critérios lógicos de natureza médica e clínica. Há prioridades notáveis.

Até aí está entendido. Falta entender é que essas coisas são antigas, não melhoraram nada, mas agora há muitas explicações tentando amenizar o problema, explicá-lo e justificá-lo. Antes, não faz muito, o tiroteio era quase unânime e explicações não rendiam nada. E há quem justifique, mas explicações não geram melhorias.

O Hospital Ruth continua igual: é ali que se acumulam atendimentos da precária rede hospitalar da região, exceto Itajaí e não vai mudar enquanto o sistema continuar como é. Há, desde tempos, a sugestão de se organizar a rede hospitalar regional e até estadual por vocacionamento, de modo que os hospitais se dividiriam em atendimentos diferenciados - cuidando, cada um, de cardiologia, ortopedia, pediatria, traumatologia e assim por diante. Foi tese defendida por anos por alguns de nossos representantes, como o ex-deputado, médico pediatra e hoje prefeito de Itajaí, Volnei Morastoni, na época em que presidiu a Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa e também pelo médico ortopedista Celso Della Giustina, hoje secretário da Saúde de Itajaí e o maior conhecedor de SUS do Estado e um dos maiores do Brasil, com várias obras publicadas.

O que se vê - e estatísticas demonstram - hoje são explicações repetirem que população procura o hospital por qualquer motivo, maioria imensa de casos que poderiam e deveriam ser atendidos pela saúde básica, nos postos de saúde. Ora, assim é desde sempre e continua sendo em qualquer lugar deste país. Nalguns lugares pela simples e boa razão de que nos postos de saúde o serviço não satisfaz - pela inexistência até de médicos nos horários devidos e na especializada desejada. Embora se aceite o fato de que essas pessoas buscam atendimentos hospitalares para meras dores de barriga e tonturas e ainda querem prioridade no atendimento. Nada de doenças, apenas comodismo, coisa passível de atendimento rápido num posto de saúde.

A terceirização do Ruth Cardoso e do PA da Barra e da UPA do Bairro das Nações, encaminhada pelo município, livrará a administração da visão direta do problema, mas continuará com ele a responsabilidade final. Desconhece-se que tipo de contrato com empresas terceirizada amenizará esses problemas, seja reduzindo a incidência de atendimentos (a se ver como fazer), seja afunilando o atendimento. Há curiosidade a respeito. Tentativas anteriores fracassaram. Até pelas características do Ruth, cuja estrutura foi montada para ser um hospital sem muitas opções, como internações em quartos individuais. A pregação do 100% SUS só rebentou com ele. A ponto de se acreditar, pelos precedentes, que sua construção foi errada (até sem Pronto Socorro) e sua abertura também. Ele foi aberto acreditando-se que o Estado contribuiria (e não aconteceu, pois só 2% da arrecadação vem daí), que a renda do SUS seria suficiente (não foi,  não é e jamais será) e que os municípios vizinhos aportariam recursos (não aconteceu e não acontecerá, pois mal cuidam dos seus hospitais). Resultado: 70% de todo o compromisso financeiro com os atendimentos do hospital sai do orçamento de Balneário Camboriú, que emprega em saúde cerca de 35% do seu orçamento, quando o limite é de 15%. 

A questão é que, antes, parecia tão fácil criticar e tão fácil encontrar uma solução. Alguns diziam: basta querer. Os fatos machucam e demonstram que não.