O assustador fator radical na política

Depois de publicarmos no Youtube um vídeo despretensioso comentando historicamente o processo eleitoral deste ano, em comparação com o que já vivemos e os respectivos resultados, recebemos quase seis mil visualizações - número parcial, ainda - e mais de uma centena de comentários de apoiadores de Jair Bolsonaro. Desses comentários, 95% sob a forma de agressão e insultos. Entenderam ser a análise uma depreciação de Bolsonaro, apenas porque colocamos em dúvida a sua capacidade de governar dentro do atual quadro institucional. Resumindo, dissemos que se não mudar, ele ficará nas mãos do Congresso, seja ele de que formação for. Se não negociar, tornará impossível governar como ele pretende, se eleito. Aliás, dissemos claramente: se não tiver uma boa base política e se não souber dialogar e conversar, NENHUM presidente governará como quer. 

A enxurrada de insultos chegou a assustar, no sentido de saber que, se o nível do eleitor preferencial de Bolsonaro, tanto quanto o dos fanáticos da esquerda petista e seus penduricalhos ideológicos, estamos ferrados, qualquer um vencendo a eleição. Além de não resolver, além de ter que se submeter aos interesses dos congressistas e "forças ocultas" - poder econômico, por exemplo; mas aí uma força nem tão oculta assim -, enfrentará a contradição da sua própria linguagem. Estão imaginando que o novo presidente, sendo um radical, poderá impor sua vontade, como um ditador. Aliás, pelas manifestações a favor de intervenção militar (?), até é possível que pensem assim: Bolsonaro assume, se não houver jeito, implanta uma ditadura. Pobres viventes iludidos. Nem as Forças Armadas querem intervenção, pois sabem que isso é quase impraticável. Nem tanto pela história dos 21 anos vividos sob o regime, mais porque não haverá sobrevivência. Exceto se pretendem, contra tudo e contra todos, impor a "solução cubana": entra, fuzila todo mundo que pensa ao contrário e se pereniza no poder. Pobre Brasil.

Triste ainda imaginar que as opções que temos, à direita ou à esquerda, são as piores possíveis para as pretensões nacionais de se livrar do estigma do atraso institucional, constitucional, jurídico, político, diplomático, social, econômico, educacional, sanitário, estrutural. Poderíamos pensar nas opções menos belicosas disponíveis. João Amoêdo, Flávio Rocha, Álvaro Dias - para citar os mais viáveis, neste momento -, poderiam ser uma saída para não descambarmos para radicalismos. Terão as mesmas dificuldades de governar, com a atenuante de serem mais comedidos e mais republicanos. Dirão que são moles demais para o processo. Mas endurecer não é bem o caso. Endurecer como, até onde? Capacidade de convergir e divergir sem confrontar é a questão. 

Mas estamos convencidos de que o Brasil somente deixará o atraso cuja consequência estamos vivendo todos os dias, quando adotar algumas medidas: novo pacto federativo, voto facultativo, eleição por voto majoritário de todos os cargos (quem leva mais votos, chega e pronto), escolha de ministros de tribunais de Justiça (inclusive os superiores), tribunais de contas, agências reguladoras, dirigentes de estatais por suas próprias instituições, muito distante do critério político. Para evitar as barbaridades que temos visto por aí e que são o caldo de cultura dos atrasos que vivemos.

O país está sem regra: o Executivo está submisso ao Congresso, o Congresso está submisso ao Judiciário e o Judiciário não está submisso a ninguém. Já não se interpreta a Constituição, mas se impõe interpretações sem pé e nem cabeça. Regras são mudadas a todo instante, dependendo de quem esteja enquadrado. Virou uma bagunça generalizada. 

Nenhum presidente, sozinho, muda isso. Radical ou não.