A grande tarefa do Canal Marambaia e suas repercussões no todo

Nas discussões sobre a cidade e suas carências, melhor manter sempre um objetivo saneador do que apenas crítico. Além de setores como saúde, educação e mobilidade urbana, o saneamento ocupa destaque em qualquer debate sério, sem esquecer outros aspectos da vida cotidiana, como a assistência social, à vista do recente caso da população de rua ou andarilhos.

O caso mais emblemático, pelas repercussões no grupo formado no WhatsApp, é o do Canal Marambaia, nominado pelos membros desse grupo como rio (Rio Marambaia Vivo), situação aceita como referencial apaixonado e até adequado para os propósitos, mas distante de sua realidade fática. O curso d’água jamais voltará à sua aparência geográfica.

O grupo cuida dos interesses do Canal Marambaia, porém estica suas propostas à necessidade de saneamento de toda a cidade, cujos pecados são conhecidos, graves e de profunda repercussão na qualidade de vida dos habitantes e, via de consequência, na condição sanitária da praia em si, orla turística inclusa.

Os reflexos disso são evidentes, embora inexista uma retração de turismo por causa disso, a ponto de temporada após temporada, mais e mais pessoas vêm pra cá – e as variações entre uma e outra dessas temporadas se devem apenas e tão somente aos humores da economia nacional e dos países vizinhos, principalmente a Argentina.

Qualquer levantamento qualitativo pós-temporada realizado pela Santur ou pela Sectur ao longo das décadas passadas, nenhum apontará como aspecto negativo a poluição (que parece invisível e despertando pouco interesse dos visitantes), a sombra na orla e a extensão da faixa de areia. Tanto quanto se poderia supor que o afogadilho de verão da mobilidade urbana, quando é complicado até de andar a pé, pois há fila para tudo, também fossem condicionantes para afastar o visitante daqui – e não são.

Mas o debate em torno da condição sanitária do Canal Marambaia (Rio Marambaia Vivo) se torna vital a partir do ponto em que conseguiu mobilizar a opinião dos conviventes com o seu trajeto. Pena que, internamente, as coisas funcionam, mas externamente nem tanto. Seja por uma renitência surda da Emasa e da própria prefeitura, que adotam posturas dissociadas dos focos discutidos ou até por uma inapetência de quem deva repercutir de modo reto a questão.

Tudo começou por inspiração da própria prefeitura, também, mas desde a primeira reunião ficou muito evidente que a euforia esbarrou em decisões equivocadas ou precipitadas, como a de cavocar o leito do canal com o fim anunciado de despoluí-lo, mediante a retirada dos sedimentos de décadas no seu fundo. A ideia prosseguiu por um bom tempo como sendo boa, notando-se, depois, ser contraproducente e inútil se os despejos não cessassem em primeiro lugar. Tanto é verdade que o trabalho parou de repente e não mais continuou. Pela simples e boa razão que a limpeza do leito do canal deu mais velocidade à água com despejos, que não acabaram.

Depois, acharam uma solução cara e tecnicamente inútil também: a videoinspeção com um equipamento locado. Sugerimos aqui que melhor seria ir nos domicílios um a um pessoalmente, detectando os despejos irregulares ou errados e corrigi-los – sob pena de punição a quem não o fizesse.

Segundo a Emasa, 115 domicílios já foram multados e em torno de 30% possuem irregularidades que causam esse problema no Marambaia. A multa resultou em quê? Parece que nada. Se não chegar com os dois pés, como multa pesada e lacre das saídas dos esgotos, ficará tudo na mesma.

Como é um drama de décadas, espanta observar, ao longo de todo esse tempo, NENHUMA ação mais eficiente por NENHUMA das administrações municipais se concluiu – a começar pela devastadora ocupação do leito do rio (na época, sim, rio mesmo), aterrado impiedosamente, apenas pela ganância imobiliária insensata e criminosa.

A tragédia do Marambaia e a do sistema deficiente do saneamento e do próprio abastecimento de água da cidade é o espelho de muita política e pouca atitude técnica e administrativa real. Ampliar capacidade de abastecimento de água ou de coleta e tratamento de esgoto é uma coisa, mas se ficar pelo meio do caminho o sistema todo, de pouco adianta. Por exemplo, quando acionarem o abastecimento de água e a coleta e tratamento de esgoto das Praias Agrestes, só injetaremos mais um drama à capacidade de ETA e da ETE, já à beira de um ataque de nervos. Porque a produção de água não dará conta, porque as tubulações precisam ser redimensionadas ou trocadas em muitos pontos – seja de água como de esgoto, principalmente deste.

Quanto a esgoto, a situação das elevatórias é muito singular: elas apenas não dão conta do recado em processo extremo de uso, como nas temporadas, e precisam extravasar. Onde? Em qualquer curso d’água próximo. Ou na rua. Em derradeira análise, no mar.

Por último, o pessoal do Grupo Rio Marambaia Vivo está urdindo uma campanha nessa temporada para demonstrar a gravidade de sua condição. Seria uma campanha aberta, com outdoors e faixas e cartazes em pontos estratégicos, denunciando a imagem precária do canal e da praia. Inclusive nos aglomerados turísticos da orla.

É uma atitude extremada, quem sabe justa, e, cá pra nós, perigosa, porque exporá Balneário à mídia nacional e, embora plena de razão, a campanha poderá derrubar a imagem da cidade turisticamente, abrindo espaço para que a imprensa nacional explore o assunto, derivando clientela para outras regiões. Valerá a pena? Quem sabe isso resulte em bom retorno para a causa, mas a sua ressonância negativa será de difícil retorno, ainda que tudo seja atendido e o Marambaia (precisamos acreditar MUITO nisso, medindo-se tempo e espaço de absoluto otimismo) se recupere. Uma imagem negativa se enquista terrivelmente, muito mais do que uma imagem positiva. Haveremos de viver muitos anos em torno do assunto, com certeza. Reerguer-se é muito mais doloroso do que manter-se no topo.

Concluindo para não irmos muito longe nessas perorações, a atitude com tal amplitude demorou décadas. Méritos aos incentivadores e cabeças do movimento. Agora há que se cuidar da disponibilidade e do discernimento dos poderes públicos para se concluir bem a missão. Que depende de todos, não apenas desses ou daqueles. E, ao que tudo indica, essa harmonia está em crise e é indispensável para o êxito. Bom seria pacificar a discussão. Colocar algodão entre os cristais.

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(Em anexo, trechos de relatos sobre o que era a Praia de Camboriú, com o Rio Marambaia ileso e suas lagoas piscosas ao longo da sua orla, todas aterradas, incluindo foto do Rio Marambaia verdadeiro, década de 60) - (Veiculação no WhatsApp)