Problemas do Ruth vêm do nascedouro...

Todos os dias há denúncias pesadas contra o atendimento do Hospital Ruth Cardoso. Geralmente de residentes em outros municípios, carentes de atenção em suas cidades, à busca, em Balneário Camboriú, do atendimento emergencial, clínico, cirúrgico ou internação.

De outro lado, a preocupação em explicar o esforço do município em prestar esse atendimento através do hospital, tentando alivir a responsabilidade.

Algumas considerações sobre o Ruth Cardoso são necessárias, antes de se discutir essas demandas críticas:

a) O Ruth, como concebido, não deveria ter sido construído;

b) Em seguida, não deveria ter sido aberto;

c) Terceiro, aberto, não poderia ser 100% SUS, sem garantia de parceria com os municípios vizinhos.

A estrutura física do Ruth não o credencia a ser um hospital-referência de atendimento regional: é limitado, de nível médio, numa construção no estilo de hospital de campanha; bom para um país em necessidade estrutural ou uma cidade pequenina, nunca para uma cidade com as dimensões de Balneário Camboriú e, mais ainda, pela condição própria de convergência geográfica que assume. Com os hospitais das cidades vizinhas, exceção de Itajaí, funcionando em condições precárias ou mínimas, claro estava, desde o começo, que seria assim. 

Tentou-se tudo em relação ao Ruth: chamar à responsabilidade de ajuda dos municípios vizinhos, inclusive via Amfri - inutilmente. E isso deveria ser claro desde lá atrás, pois sequer o Pequeno Anjo, único hospital infantil, recebe ajuda plena dos municípios a cujos moradores atende. 

Aí temos  uma sucessão de responsáveis: Rubens Spernau, que o construiu e entregou sem as mínimas condições de funcionamento, em dezembro de 2008; Piriquito que, pressionado, entregou os pontos e o abriu, apesar de pareceres contrários do seu próprio secretário da Saúde e especialistas como Celso Dellagiustina; finalmente, Fabrício que, achando que seria tudo mil maravilhas, arriscou assumi-lo, propondo um Conselho Gestor composto por secretários de Saúde regionais para garantir seu sustento. Inútil. Qual município iria investir no Ruth tendo seus próprios hospitais funcionando mal?

Ademais, melhor jogar tudo pro Ruth (que é porta aberta, não pode negar atendimento) e deixar que Balneário se lixe e arque com o ônus das críticas e das deficiências. Nem o Estado, até agora, deu pelotas: nada mais que 2% dos recursos vêm de lá: algo em torno de R$ 70 mil por mês. Não paga nem o consumo de energia.

Tentou-se, na gestão passada, terceirizar o atendimento, Por tudo que se sabe, fracasso total.

Agora, novamente. Não está dando muito certo, a não ser que mudem as características do hospital. Para isso, há que se construir uma outra ala, adaptada para atendimentos particulares e por planos de saúde, pois as atuais instalações são compostas de quartos coletivos - nenhum individual. Mesmo aí, questiona-se: a porta de entrada será uma só. Qual será a prioridade no atendimento inicial? Não haverá privilégios? Podemos acreditar, finalmente, o humanismo e no cumprimento de regras mínimas de decência, mas isso, no Brasil, infelizmente, é meio utópico.

Não podemos ter um hospital, mesmo terceirizado, que precise de uma intervenção pessoal e enérgica do prefeito para resolver um atendimento mais urgente, como já ocorreu. Não há super-homem que suporte isso. E não há sistema de saúde que resista.

A OPINIÃO DO DR. CELSO DELLAGIUSTINA, UM DOS MAIORES ESPECIALISTAS DO BRASIL EM GESTÃO HOSPITALAR E SUS, EX-SECRETÁRIO DA SAÚDE DE ITAJAÍ, SOBRE O RUTH CARDOSO (EMITIDA HÁ CERCA DE DOIS ANOS):

Falando como especialista sobre a situação do HMRC de Balneário Camboriú, fruto de embates políticos em épocas eleitorais, ouso emitir as seguintes opiniões:

Tivemos a oportunidade de acompanhar o nascedouro deste hospital e como tal verificar que ele apresentava uma série de erros tecnológicos a ponto de desaconselharmos o então prefeito Rubens Spernau a não construí-lo, por várias razões:

a) O hospital não apresentava o perfil epidemiológico necessário para atender as necessidades de média e alta complexidade da cidade e da região. O hospital foi projetado para resolução de problemas de baixa complexidade.
b) O projeto do hospital não contemplava um pronto socorro que pudesse atender a demanda da população e muito menos de equipamentos para diagnósticos de patologias de maior complexidade.
c) Apresentava apenas duas salas cirúrgicas e uma terceira para pequenas cirurgias, o que é considerado muito aquém das necessidades de uma região de 200.0000 habitantes.
d) Não apresentava Unidade transfusional (de sangue)
e) Vários outros erros estruturais em desacordo com a RDC 50 da Anvisa, que resultaria na dificuldade de se conseguir o alvará sanitário.

Mesmo com estes erros maiores, decidiu-se pela construção do projeto inicial.
Tentamos durante a construção, junto com os arquitetos da região, fazer as correções necessárias, mas não conseguimos. Parecia que a Dra. Daysi Kulstra (da WFO, que construiu o hospital) mantinha sua posição inicial, não detinha nenhuma experiência como gestora da saúde e de conhecimentos do SUS.
Depois de pronto (da maneira original) fomos contrários à abertura do hospital como hospital porta geral de entrada. Fomos da opinião que ele poderia assumir só parte das necessidades da cidade, especialmente o setor Materno Infantil, e que fosse um Hospital de portas fechadas, servindo como suporte para os hospitais maiores da região (HMKB e Hospital Santa Inês). Apresentamos um projeto através do então Deputado Volnei Morastoni ao Prefeito Edson Dias do fluxo deste funcionamento e que isto representaria 600 mil de despesas a menos por mês ao município. Também não foi aceito. Durante estes oito anos de mandato (gestão Piriquito) a maior reivindicação era a regionalização do hospital e sua passagem para o Governo Estadual. Seu hospital gêmeo em Biguaçú com os mesmos defeitos foi regionalizado, recebe verbas federais e estaduais, é porta fechada e mesmo assim, embora inaugurado e conduzido por uma Organização Social, não consegue dar atendimento à população.
A experiência de comando do Hospital Ruth Cardoso com organização social já foi desastrosa no seu início e vários outros casos no Estado, não se apresenta como uma boa solução.
Voltar a insistir nesta fórmula de administração seria o mais correto?
Ou poder-se-ia pensar em outras formas de administração: Fundações Públicas de direito Privado? Associações sem fins lucrativos sob regime de Comodato (a exemplo do HMKB, hospital regional do Oeste, entre outros?)
Como vencer as barreiras que levem a uma maior eficiência e eficácia do hospital?
E volto aqui a insistir na Gestão de Saúde que se dedique a uma boa atenção básica com resolução de 70%.
Uma reestruturação da gestão hospitalar com participação da sociedade civil organizada também me parece um das soluções para o problema.
O problema do HMRC é crônico. Precisam os políticos e gestores de saúde sentar-se e, independente de posições e aproveitamentos para fins de trampolim políticos e de partidos, acharem soluções de gestão que possam melhorar o funcionamento da Saúde em Balneário Camboriú.