Chuvas demais, consciência de menos

O fenômeno de fortes chuvas e suas consequências, com precipitações muito acima das médias históricas, causa transtornos e muitas críticas. Em geral, aos mandatários atuais e sem considerar os históricos.

Cidades como Criciúma, Joinville, Itajaí e Balneário Camboriú vivem o dilema, apesar de operações realizadas, com a construção de galerias pluviais de alta capacidade ou, como no caso de Criciúma, até de um canal auxiliar para o rio da cidade.

Cidades como Balneário Camboriú, erguida em cima de lagoas e um rio, aterrados para dar lugar a avenidas e edifícios, os resultados são inevitáveis. Colocada ao nível do mar, lençol freático à flor da terra, a qualquer maré cheia, mesmo sem chuva, pode ter problemas de escoamento. Com chuva, excessiva ou não, é o que se sabe e vê.

Há na cidade, inclusive, regiões tratadas com tubulações adequadas que voltaram a ser alagadas e até ruas que há muitos anos não convivem com alagamentos, nos dois últimos sofreram as agruras.

A primeira explicação é o excesso pluviométrico – coisa de 65mm num dia e até 100mm no outro. Difícil suportar. São índices, vejam, de uma hora e meia de chuva torrencial e esses índices correspondem a 15 ou 20 dias de chuva continuada.

A segunda explicação é a lá de cima: a cidade acabou com a porosidade do solo e a água não tem por onde correr, exceto por cima do asfalto. E na orla concentram-se todos os volumes descidos de outras regiões.

A terceira, talvez definitiva, é a insensatez que não tem mais remédio da exploração imobiliária criminosa e indevida ao longo do tempo, com ocupação das margens, aterramento de cursos d’água e até de nascentes, destruição de mata ciliar e, finalmente, o carreamento de lixo e mais lixo para as tubulações, somado ao assoreamento por areia escorrida do leito das ruas.

Pagamos um preço caro por tudo isso. E ainda há o advento do esgoto mal despejado, muita vez intencionalmente e o maltrato que o próprio cidadão dá à cidade e, não raro, ao seu próprio terreno.

Sim, o primeiro argumento que chega à frente é o mais cômodo: culpar o administrador, como se ele tivesse começado tudo errado e, assim, seja responsável pelas mazelas históricas. Ninguém se culpa pelo que faz ou deixa de fazer em termos de cuidados individuais para com a cidade.

Finalmente: há solução? Definitiva jamais. Há como amenizar? Sim, mas carece de estudos técnicos, como redimensionar o escoamento das bocas de lobo, colocando gradis de dimensões maiores em seus lugares; retirar as passagens elevadas da Atlântica, que represam as águas (trocando-as, quem sabe, até em número mais reduzido, por lombadas eletrônicas). Há mais possibilidades e a cidade ou até a Amfri (para algo deve servir) poderão ajudar-se e participar de um projeto neste sentido, tanto para Balneário quanto para Camboriú e Itajaí.

O que não é possível é suportar as enxurradas, reclamar, contabilizar prejuízos e aguardar as próximas.