BC: ame-a ou deixe-a

Há os nativos, amantes medulares da cidade, com seus defeitos e virtudes, haja o que houver. Há os adotivos, por escolha subjetiva – chegados aqui de todos os quadrantes do estado, do país e até do exterior. Não são poucos. Maioria, quiçá.

Com suas bonanças e suas mazelas atinentes a qualquer núcleo citadino, Balneário Camboriú luta incessantemente para manter umas (bonanças e qualificações) e contornar outras (mazelas e descasos) com a mesma disposição. Os defeitos daqui são idênticos aos de tantas outras cidades, inclusive as de origem dos arribados.

As virtudes, muitas delas, são parecidas. Porém, convenhamos: esta cidade é especial e acolhe a todos com o mesmo carinho e zelo. Aos muitos que a escolhem e aos tantos que são escolhidos por ela para terem aqui cidadania, alguns aspectos devem ser detalhados.

Nas ocasiões de dificuldade, como as questões ligadas ao saneamento, à mobilidade urbana, ao atendimento da saúde, aos fatores de educação e segurança – há uma discrepância de ativismo. Essas questões sempre foram e certamente serão principais em qualquer polêmica diária na cidade. Mas o modo como muitos avaliam e analisam, principalmente nas mídias sociais, é comprometedor até do futuro da cidade. Na verdade, muitos produzem guerras e protagonizam rixas do tipo briguinha na saída da aula. Quase sempre de sentido pessoal, com raiva desmedida.

Fato: ao invés de direcionar críticas fundadas acompanhadas das devidas alternativas, preferem detratar, demolir os méritos da cidade e jogar culpas para todos os lados, menos para si próprios, como se fossem apenas vítimas e não partícipes solidários de tudo o que acontece aqui – para o bem e para o mal.

A primazia é sempre para a condenação, jamais para a cooperação. Se há fundamento ou razão, é outra história.

Isto precisa ser olhado por um lado prático, com dados:

- Quantos moradores daqui têm seus veículos licenciados noutras cidades?

- Quantos moradores daqui têm seus títulos eleitorais em outras cidades?

(Para ilustrar: em 2016, BC tinha 91.438 eleitores; em 2018, tinha 82.670 – após a biometria. Nada e nem ninguém explicou essa queda no eleitorado. A explicação mais razoável que encontramos é que muita gente preferiu continuar aqui, mas fazer a biometria em suas cidades de origem, mantendo vínculos sociais, eleitorais e políticos; por isto também o índice de abstenção aqui sempre foi grande e as justificativas de votos ou os votos em trânsito sempre foram significativos).

- Há os que moram noutras cidades, lá pagam seus impostos, lá licenciam seus veículos, lá têm seus títulos e trabalham aqui, fazendo a rotina diária do ir e vir. E vivem exigindo tudo, sem a contraprestação tributária (afinal quitada nas suas cidades de origem). Geralmente são os críticos mais ferozes. Nas suas cidades, deixam pra lá. Afinal, lá, no máximo, só dormem.

Na saúde, gentes de toda a região querem aqui do bom e do melhor – mas nas suas próprias cidades não têm. E até por isso vêm pra cá.

Na educação tentam ocupar vagas, alegando mil condicionantes. Na segurança, idem. E vivem às queixas sobre mobilidade urbana. É certo que a autoridade pública não pode só ficar ouvindo e terá que fazer muita coisa ainda faltante (há bastante), mas também é certo que há uma aplicação ingente de esforços e dinheiro para oferecer boas condições para os cidadãos da cidade e mais da metade disso tudo é para atender moradores de outras cidades, dada a precariedade lá existente.

Os limites obrigatórios de saúde (15%) são ultrapassados em muito. Em muitos casos, dobrados. Idem para os de educação (25%). No saneamento, há muito a fazer, com investimentos elevadíssimos. O quadro não é animador. Mas se olharmos bem há irresponsáveis que não cooperam – sendo muitos deles poluidores em potencial, por exemplo, despejando esgoto na rede pluvial ou até diretamente nos cursos d’água. É de pilha.

Mas o negócio é reclamar da tarifa do esgoto, da coleta do lixo, da tarifa da água (sabem quanto custa um litro de água tratada aqui? R$ 19,67 por 10 mil litros - 10m3. Divida isto e veja).

São os que acham que, pagando IPTU (quando pagam), já fizeram todo o necessário para manter a cidade funcionando.

Finalmente, vê-se que criticar é muito simples. Basta veicular e deixar rolar, dê no que der. Isto é também irresponsabilidade. E muita. É um rompimento do bom-senso e da verdade.

E vamos lá: há quem venha morar em Balneário Camboriú e ache que está fazendo um grande favor à cidade. Quase uma honra. Ou seja: dá a sua presença e acha que dá muito.

Será que um “ame-a ou deixe-a” não seria de bom alvitre?