Alargamento da faixa de areia e seus reflexos e incongruências comparativas

O alargamento da faixa de areia da Praia Central de Balneário Camboriú é irrreversível, seguindo-se a rota normal. Exceto por um "acidente de percurso" ou um entendimento fora da curva na área judicial. Inexiste paradigma de impedimento no mundo inteiro pelas motivações elencadas por quem é contrário aqui. A licença inicial está liberada (LAP - Licença Ambiental Prévia) e os recursos iniciais estão aprovados (R$ 85 milhões, financiados via sistema bancário) pela Câmara Municipal. O fundamento legal está garantido pelo plebiscito de 2001 - desconhecendo-se caducidade possível de seu resultado, como sugerem alguns. Na época, a presença do eleitorado foi mínima, mas aceita dentro da lei. Votou quem quis, pois era presença facultativa.

Houve, ao longo das discussões, hipóteses de melhorar a aceitação da praia mediante redução da sombra dos prédios projetada na areia depois de certo horário das tardes (das 16 horas em diante), abrigar mais pessoas na orla, ampliar os espaços de lazer, favorecer um sistema viário e de uso humano ao longo do percurso, higienização do cenário, racionalização de uso desses espaços - com redução de tendas de churros e quiosques, ampliar possibilidades de quadras esportivas e, finalmente, reduzir o impacto das marés cheias.

Pode-se questionar como inúteis muitas dessas premissas, como a sombra na areia ou aglomerar mais pessoas - pois a frequência na cidade nas temporadas independe disso. As estatísticas de cada temporada desde sempre desmentem o argumento. Essas limitações não impedem o fluxo de turistas. Enfim, sombra na areia ou espaço reduzido na orla nunca travaram a vinda de visitantes.

É possível questionar-se a iniciativa, surgida há pelo menos 30 anos sem discussões mais profundas. E é possível defender-se também. Em ambos os casos, com controvérsias variadas. Isto é do jogo. Mudanças radicais, com influência na estrutura da cidade, chocam sob qualquer prisma. 

E é bom analisar a projeção de teses contrárias, alegando o recurso alocado, afirmando ser ele "mais necessário na saúde ou na educação". Quem sabe na mobilidade ou no saneamento. Comparações feitas ficam sem nenhum sentido lógico, como medir o volume de recursos pela hipótese de construir-se "30 UPAs" ou "mais umas 40 escolas". O dinheiro serviria para muita coisa, mas outros setores já têm seus recursos adequados investidos anualmente. E, cá pra nós, construir mais 30 UPAs (ou seja postos de saúde, se quiserem) ou mais 40 escolas, pra quê? Só se for para servir de abrigos para desocupados, pois o funcionamento disso acarretaria só mais problemas. E é administrativa e economicamente inviável. Há cidades racionalizando as gestões de saúde melhorando os atendimentos - e nem mexendo nos orçamentos. Para provar, temos uma UPA sem condições de funcionamento aqui e outra funcionando precariamente em Camboriú. Isso não é uma varinha mágina de fada boa. Precisa de recursos permanentes para manter-se ativa. 

Em Balneário Camboriú, estamos com o mesmo universo de alunos no ensino fundamental há muitos anos. Provando não ser questão de mais espaço. Porque, simplesmente, não é. 

Quanto a investir em saneamento, o município está fazendo. Mas na verdade ainda não é isto que trava, sim a conscientização. A prefeitura começou a notificar residências e empresas poluidoras, com esgoto indevidamente ligado ou apenas despejando nos cursos d'água - e já vimos renitentes sendo punidos com o lacre por não terem seguido as orientações e o prazo de adaptação ao sistema. 

Confessamos uma certa indiferença quanto ao alargamento e seus resultados na vida da cidade. Não pela obra em si e suas consequências, senão pelo receio de falharem as fiscalizações devidas e descumprirem as metas de "higienização" da orla, pois isso eliminaria todo o sentido do projeto. O nosso medo tem precedentes em quase todas as áreas. Combinaram ou anunciaram uma coisa e fizeram outra. E depois do mal feito, difícil recuperar. Querem uma prova? Tentem acabar com os deques nas calçadas, devolvendo-as ao uso pleno dos pedestres. Deveriam permitir, quando inusados, a passagem de pedestres, mas viraram extensões dos prédios. De graça e com proteção da lei. Nas áreas nobilíssimas da cidade. 

Pra terminar. Alargar a faixa de areia, parece-nos ser um bom argumento, dará à cidade os espaços de lazer e convivência que ela, hoje, infelizmente não possui, por razões que a gente conhece bem - historicamente - e não mais adianta discutir ou questionar. 

E vamos em frente, pois atrás vem gente.