A abstração chata da posse de armas

Armas os bandidos já têm. Com desarmamento ou não. E continuarão tendo - das mais sofisticadas do mundo, que nem fabricadas no Brasil são e nem as Forças Armadas possuem. E não as registrarão nem agora e nem depois. E bandidos já matam com elas - basta olhar nossos índices de homicídios por armas de fogo, os maiores do mundo. Agora estão achando que todos, com uma eventual liberação de posse, vão sair por aí comprando armas, registrando, legalizando e indo pra rua atirar em quem estiver passando. Quando falo todos, falo nos que terão cacife para comprar armas, as quais, das mais simples às mais sofisticadas, são vendidas a preços longe do orçamento da maioria. Não dá pra comprar nem com carnê das Casas Bahia, de tão caras.

Acham, por acaso, que, se eu, por exemplo, quiser matar alguém, vou registrar arma pra isso? Pego uma, como os bandidos fazem, no câmbio negro, sem identificação, atiro e jogo no mar.

No Brasil, neste instante, não apenas por causa de armas de fogo, mas por causa de qualquer forma de assassinato, estamos com medo é do desatino, da insolvência moral e a impaciência de todos com as mais comezinhas coisas da vida cotidiana - abrir um portão, fechar uma porta, passar na frente, cruzar uma rua, olhar feio, não rir, chorar, fazer barulho, não cumprimentar, não responder, dizer ou não dizer, o cachorro de estimação latir, o gato caseiro miar alto demais, aceitar ou não aceitar. Além disso, há quem, nos cumes dos poderes, contribua para acentuar essas desavenças internas do nosso ego, desde a roubalheira desvairada até a impunidade criminosa. Viramos zumbis, doidos varridos, num egoismo assassino de cada um por si e Deus por ninguém. A ideia, para quem está nessa, é eliminar, tirar do caminho. Mas aí nem precisa arma de fogo: uma frigideira, um porrete qualquer, um garfo, uma faca de ponta e até sem, uma pedra, um empurrão, uma agressão violenta. Então, pra mim, não é a arma, é a pessoa - e isto foi repetido tantas vezes que cansou.

Tem gente que pensa em morar sozinho no mundo, como se o seu redor fosse uma abstração chata.