A cidade, sua vida, sua gente (I)

Há muitas variantes na vida de Balneário Camboriú. E todas refletem o tipo de relação com a cidade, seus costumes, suas alternativas, suas virtudes, suas capacidades, suas perspectivas e até seus defeitos. Costumo afirmar: Balneário Camboriú possui defeitos como todas as cidades; entretanto, possui virtudes como poucas. A começar pela privilegiada condição topográfica e territorial, seja em dimensões como em acessibilidade - inobstante os obstáculos do dia a dia para a locomoção, mas não é disso que se trata aqui e sim da acessibilidade a oportunidades a quem deseja encontrar um lugar para os seus desafios pessoais e empreendedores.

Por ser cosmopolita como poucas no Brasil, a ela coube, ao longo do tempo, dar guarida a muita gente com hábitos e visões diferentes, desejos díspares, sem despertar, nos primeiros momentos, o vínculo telúrico. Vínculo que, só depois, emerge e se sedimenta. Poucos dos que para cá vêm - por qualquer razão ou circunstância - pretendem sair. A cidade tem um ímã. 

As lutas por seu futuro - e para todos o futuro é hoje, pois a cidade tem pressa, dada a sua enorme empatia com investidores e a necessidade de se adaptar a um crescimento que poucos previram. Ou ao menos não previram na magnitude desenvolvida. Balneário Camboriú, de fato, extrapolou a imaginação de quase todos e continua extrapolando.

Nos seus 55 anos de emancipação (20 de julho de 1964), foi nos últimos trinta que ela explodiu de fato com toda a força. Imprevisível força. Em vários sentidos mais inchou do que cresceu, tal o descontrole de seu planejamento urbanístico. Nesse descontrole juntam-se a inércia ou incapacidade do poder público de regular as posturas municipais e fiscalizá-la com o devido rigor e a volúpia de quem veio para faturar muito e rápido, transfigurando a cidade e danificando o seu caminhar mais ordeiro e controlado - como os cuidados com a ocupação de espaços e os cuidados com o meio ambiente. Inexiste aqui qualquer observação mais ácida ou crítica - senão apenas fato. 

O exemplo mais clássico - e qualquer imagem antiga mostra isso com meridiana clareza - é o assassinato do caudaloso Rio Marambaia, aterrado para dar lugar a prédios e asfalto. Seria formidável tivesse a cidade crescido ao longo do rio, mantendo-lhe a incolumidade natural, preservando suas margens e quem sabe até fazendo-o um recanto de lazer. E aí quem sabe até mantidas as piscosas lagoas antigamente existentes no atual centrão. Nossa imaginação vai muito longe. Inutilmente e com muita dor.

Hoje, é certo, o inconformismo com esses fenômenos nada alvissareiros que nos tungaram um futuro mais bonito para a estrutura urbana, não podem e nem devem impedir a cidade de desenvolver-se, adaptada a uma realidade indesviável. Convivendo com seus defeitos e quem sabe os corrigindo tanto quanto possível e buscando novos horizontes. Porque a cidade favorece isso, porque a cidade quer isso.

E porque, embora possamos achar que nossos limites territoriais afunilarão o futuro, haveremos de encontrar um jeito de conceber outras formas de crescer sem mais agressões ao visual, ao ambiente e sem decepcionar a cidade e os cidadãos que nela nasceram e para cá vieram usufruí-la. 

Para que ela seja a cada dia melhor, mais bonita e ainda mais agradável para todos nós e para quem a visita. Amém.

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(Neste espaço, periodicamente, as publicações serão específicas para coisas da cidade, fatos de sua vida e as personalidades que nela vivem. Sempre com o sentido de evidenciar méritos, dar sugestões, fazer observações críticas construtivas, relatar ocorrências exponenciais. A finalidade é dar voluntariedade às temáticas vivenciadas no dia a dia - ou ao menos é a intenção)