Carta de Portugal (I)

Encantador este lugar. Visual indescritível por onde quer que se olhe.
São Domingos de Rana, onde estamos, é uma freguesia portuguesa do conselho (aqui escrevem concelho, com C) de Cascais, com 20,36 km² de área e com a população de 57.502 habitantes (2011), sendo a freguesia mais populosa do município de Cascais e uma aldeia das mais populosas de Portugal.[carece de fontes]. A sua densidade populacional é de 2 824,3 hab/km2. Tem por padroeiro (orago) São Domingos de Gusmão.
Área de menos da metade de Balneário Camboriú, densidade semelhante, mas também bem menos que a metade da população. Tudo relativo.
Das coisas principais percebidas a olho nu, sem olhar muito: silêncio quase absoluto, motoristas param MESMO ao ver um pedestre passando na faixa ou que esteja querendo passar, a fiação elétrica é toda subterrânea (com raríssimos locais em exceção e põe raríssimos nisso), nada de lixeiras nas ruas e também nada de lixo (a não ser aquele - imagem anexa - que a natureza proporciona por sua beleza espontânea de final de outono, com a queda das folhas das árvores), andamos hoje e não vimos NENHUMA moto, em compensação também NENHUMA bicicleta. Ônibus vimos um, estacionado, esperando passageiros (pequeno). NENHUM edifício de dez andares. Acho até que o limite do gabarito é cinco - pois nada vi além disso.
Conjuntos habitacionais à beira das ruas e os apartamentos térreos SEM GRADES nas janelas ou nas áreas dos apartamentos.
A área comum dos condomínios (muitos deles grandes e todos de nítidos bons cuidados) absolutamente abertas, escancaradas e ninguém lá.
Fomos no mercado fazer umas comprinhas. Nada de sacolas plásticas (nem de longe); cada um se vire ou compre sacolas ecológicas no próprio mercado.
Os carrinhos de compra no mercado são presos a um sistema de controle. Coloca-se um euro e ele libera. Feita a compra, devolvendo-se o carrinho o euro volta (ele fica preso num dispositivo no próprio carrinho; ao engatar numa conexão que ele tem no outro carrinho estacionado, libera o euro pra você. Se for relaxado ou mal educado como quase todo mundo no Brasil, adeus euro).

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Aqui em Portugal, na margem das rodovias, há totens amarelinhos, completamente expostos, a fim de que quem queira ou precise, discar direto para socorro policial - por acidente ou ocorrência de outro tipo. Todos inteirinhos e bonitos. Fiquei pensando isso no Brasil.

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Sem um barulhinho de moto aqui em terras lusitanas é esquisito.

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O avião do voo internacional Viracopos-Lisboa foi danado. Enorme e lotadíssimo. E eu lá, sentado na penúltima fila de poltronas com dona Sonia - o preço de querer viajar sentados lado a lado. Coisa mais desconfortável que já vi nos últimos anos. Sofri os pecados. Não me empolgo muito com viagens, pois não as gosto muito. As longas me levam ao desespero (sentido figurado, claro). E saber que lá embaixo é só água é pior ainda.

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E eu aqui, em São Domingos de Rana, com minha pauta simplória: há raríssimas lixeiras nas ruas (nem o comércio dispõe, nas partes externas), não há lixo (nem acumulado e nem disperso nas ruas) e também não vi garis trabalhando. Eles inexistem, ao menos nesta parte do lugar em que estou. O lixo doméstico - reciclável e orgânico - deve ser levado (e é) pelo morador até o container das proximidades. Não há caminhão de coleta andando de casa em casa.

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Déia Machado Sousa lembra bem: filmes estrangeiros exibidos na tv portuguesa não são dublados. Nenhum. Todos legendados. E eu pensando em vir pra cá e exercer a profissão de dublador. Pifou o taco. Nem passando giz.

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Legendas de filmes em Portugal são em português castiço. Tudo certinho. Mas palavrão, em tradução literal, sai mesmo. Aqui como no Brasil, merda é merda mesmo.

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Assistir televisão aqui é muito estranho. Tudo é sensato. Nada de excessos ou absurdos. O noticiário é profissional, apenas. Só sai o que está no contexto do fato. Só no Brasil inventam informações para servir a propósitos políticos ou ideológicos.

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Ontem, após visita à Liz, netinha recém nascida, no hospital, dona Sonia Machado e eu fomos almoçar num breque aqui perto, em São Domingos de Rana. Comida italiana. Cinco euros o prato. Dona Sonia, ao ver a porção: "Que miséria...". Era um tiquinho mesmo, mas encheu e estava muito bom. Macarrão tipo não sei o que, temperado com sei lá.

Ao final e ao termo: Europa é, de fato, outro mundo em tudo. Sempre pra melhor, ao menos em relação a nosoutros, brasileiros. Nem comparação. Me sinto um peixe fora d'água. Um estranho no ninho.