CARTA DE PORTUGAL (II)

Passar pelos escaninhos de Cascais (Praia da Ribeira) é ler e absorver o conteúdo de um belo livro de história. Quiçá bem mais do que isso – é estar dentro da história, vivendo-a in loco.

Chegar é uma bela aventura moderno-antiga. De trem, circulando num trajeto de cenário indizível, à beira mar de um lado e com desfilar de edificações de todos os tipos e padrões do outro. Tudo muito rápido, numa mutação estonteante e belíssima, pela multiplicidade de imagens sequenciais.

Difícil imaginar semelhança com qualquer ponto do Brasil. Acesso ao trem com tarifa previamente paga (3 euros e 20, ida e volta, mais 0,50 pelo cartão, que só se paga uma vez, pois é recarregável), adicionada a um cartão com chip controlador do embarque e desembarque, sem ninguém para fiscalizar. Parece uma loucura, para os nossos padrões.

O trem confortável, rápido, com sinalização eletrônica visual de temperatura e indicativos das estações de parada. Vale pelo cenário.

Circulando pelo centro urbano, ninguém – repito: ninguém – atravessa rua fora da faixa de segurança. E, como já disse, os carros param MESMO.

Anda-se pelas ruelas e pelas avenidas – nenhuma de largura exagerada – com uma tranquilidade singular. Lugares para refeição há inúmeros, com pratos de todos os tipos e a preços de vão do razoável ao absurdo, para os padrões do turista de recursos minguados como nós, com o dinheiro contadinho.

Mas o que mais impressiona é o cenário natural e o cultural. A preservação é um detalhe impressionante. Por exemplo: há uma vila de pescadores improvisada – ou não – dentro da comunidade chiquérrima. O lugar é deles e ali ninguém se mete. Os casarões são residenciais, mas o térreo, em geral, é ocupado por restaurante. E os proprietários - ou quem adquiri-los eventualmente -, não podem mexer na estrutura e sequer alterar a cor ou pintar da cor que desejar. Tem que manter o padrão exigido pelas posturas. Ou não ocupa.

Há ainda o detalhe maravilhoso da mistura de arquiteturas modernas e antigas, todas  muito bem cuidadas.

Paramos num restaurante desses (e talvez não seja um padrão, sei lá). Fizemos o pedido numa cartela especial que fica em cima das mesas, por número do prato e tivemos que descer ao caixa, apresentar o pedido, pagar e depois ir buscar. Não havia garçon para servir. Só depois é que aparece uma pessoa para recolher, quando a gente sai.

Vendedores ambulantes (de muitas nacionalidades, muitos africanos) e tendas de vendedores há em pencas. Há feirinhas com tudo o que se possa imaginar, como no Brasil.

Provamos a ginja, uma bebida deliciosa servida num dedal (a mim me pareceu, pelas dimensões), a um euro. O copinho é de chocolate e se come depois. Com para o meio ambiente e para o paladar. Gostoso sim, mas carinho. Pra turistas. Quem manda chegar aqui cheio de panca...

===

Na estação de trem em Cascais, um piano para quem quiser executar. Soubesse eu, um burro pretensioso, executaria "Odeon", de Ernesto Nazaré, uma das minhas prediletas para este instrumento. 

===

Não dá nem pra imaginar: em Portugal, no estacionamento público controlado, há máquinas para se registrar e pagar a vaga. São cartões recarregáveis, como os de acesso aos trens. Não há cancelas e nem pedem comprovação de nada em lugar nenhum. E, louvado seja Deus, todos pagam. Tô bege.

===

Em Cascais, wi-fi em todos os cantos: bares e restaurantes, supermercados, estações de trem e ônibus e em outros lugares. Excelentes sinais. Qualidade máxima. E o animal de quatro patas e um rabo aqui só descobriu isto ontem.

===

Ao menos em Cascais e redondezas, o povo português pouca ênfase dá a enfeites natalinos. Uma luzinha aqui e ali, quase imperceptível. E apenas em ruas comerciais de bom movimento. Mais nada.

===

Vendo o que vejo e comparando, pergunto: qual nosso padrão de riqueza e o que fazemos com ela? Não a riqueza pessoal de cada um, mas a riqueza pública.

===

Tá doido. Diferenças culturais constrangedoras estou vivendo. Constrangedoras pra nós.