CARTA DE PORTUGAL (III)

Num terceiro momento de nossa passagem, vivenciamos um dos locais mais emblemáticos da história, em Portugal: Belém, local de onde partiram os descobridores de dois terços do mundo. Às margens do Tejo, há toda uma simbologia daqueles tempos – a Torre de Belém e o Mosteiro dos Jerônimos, onde estão os túmulos de Vasco da Gama, Fernando Pessoa e Luis de Camões. É possível respirar isso tudo e se embebedar de sentimentos nostálgicos. Vem à memória Pedro Álvares Cabral e Vasco da Gama, também Cristóvão Colombo, que por ali passou num dos momentos de suas navegações. Sem esquecer a imagem fantástica da Ponte 25 de Abril, construída durante o período do ditador Salazar.

A Torre de Belém, é uma das sete maravilhas de Portugal, tendo também sido considerada pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade. É, sem margem para dúvidas, um dos monumentos que melhor identificam Lisboa, a capital portuguesa.

Hoje nós podemos visitar a Torre de Belém numa das zonas mais belas de Lisboa mas, nem sempre foi assim. Inicialmente, a Torre de Belém foi construída na margem direita do rio Tejo, junto à praia de Belém e todo o seu perímetro ficava rodeado pelo rio.

No entanto, o rio foi deixando areia alojada à sua volta, de modo que, com o tempo, a praia de Belém passou a estender-se até à Torre.

Hoje, quando visitamos este local, temos terra firme a norte, a nascente e a poente, enquanto que, a sul, a Torre encontra-se cercada pelo Tejo.

Este é um monumento de estilo manuelino que se destaca pelo nacionalismo nele implícito, sendo que é rodeado por decorações por decorações com o Brasão de Armas de Portugal.

Nas janelas de baluarte podemos ver inscritas cruzes da Ordem de Cristo.

Quando observamos este monumento, pela sua arquitetura, podemos notar a extravagância com que se vivia em Portugal na época em que a Torre foi construída – o início da Idade Moderna, quando Portugal era uma potência global.

História da Torre de Belém

Inicialmente, a Torre de Belém foi projetada para integrar o sistema defensivo da Barra do rio Tejo, sistema esse que havia sido projetado por D. João II e que era integrado na margem direita do rio pelo Baluarte de Cascais e na margem esquerda pelo Baluarte da Caparica.

No entanto, foi apenas em 1514, já sob o reinado de D. Manuel I, que a Torre começou a ser construída. A sua localização era sobre um conjunto de rochas nas águas do rio, onde anteriormente se encontrava uma antiga nau artilhada, que aí se encontrava ancorada e de onde costumavam partir as frotas para as Índias.

O arquiteto que projetou a Torre de Belém foi Francisco de Arruda, ficando as obras a cargo de Diogo Boitaca, que nessa altura dirigia também as obras do Mosteiro dos Jerônimos, em terra firme, junto à praia de Belém. As obras da Torre de Belém ficaram concluídas no ano 1520.

Obviamente, à medida que os meios de ataque e de defesa foram evoluindo, a função defensiva para a qual a Torre de Belém foi projetada ficou obsoleta. No entanto, esse espaço continuou a ser usado a favor dos interesses do Reino. Entre outras funções, a Torre de Belém chegou a servir como posto de sinalização telegráfico e farol. Além disso, os seus paióis foram utilizados como masmorras para presos políticos.

Ao longo dos séculos, a Torre de Belém foi sofrendo várias reformas, sendo que, durante o século XVIII, foram reformados o nicho da Virgem virado para o rio, o varandim do baluarte, as ameias e o claustrim.

Características da Torre de Belém

Como todos os monumentos de estilo manuelino, vemos aí refletidas as influências islâmicas e orientais, marcando o fim da tradição medieval com as suas torres de menagem e ensaiando uma das primeiras fortalezas do país.

O seu exterior é caracterizado por várias esculturas alusivas aos descobrimentos, tais como cordas e nós e também pelas ameias em forma de escudos, com esferas armilares, torres de vigia no estilo mourisco. Aí podemos também a primeira representação de um rinoceronte encontrada na Europa.

A estrutura da Torre de Belém é composta por dois elementos principais: a torre e o baluarte. Sendo que nos cantos do terraço encontram-se guaritas de formato cilíndrico, decoradas em cantaria de pedra.

O interior da torre encontra-se dividido em cinco pavimentos, os quais se encontram dispostos na seguinte ordem (de baixo para cima): Sala do Governador, Sala dos Reis, Sala de Audiências, Capela e Terraço da Torre.

Quanto à nave do baluarte, é ventilado por um claustrim, abrindo 16 canhoeiras para tiro rasante de artilharia. O terrapleno encontra-se guarnecido por ameias e constitui a segunda linha de fogo. É aí que podemos encontrar o Santuário à Virgem do Restelo.

Envolvência da Torre de Belém

Basta dizer que a Torre de Belém está classificada como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Bem perto, você poderá ainda encontrar o Palácio de Belém, a residência oficial do Presidente da República. Além disso, quem vem a este lugar, não pode ir embora sem parar para provar um dos famosos, deliciosos e pouco calóricos (comparativamente com a maioria dos doces portugueses) – o Pastel de Belém.

Passar pela Torre de Belém é, portanto, inevitável. Passamos também pelo Museu dos Coches, algo notável, onde estão carruagens usadas por reis e dignitários da velha Portugal. Indescritível. E a Ponte 25 de Abril tem história interessante.

Aquela que hoje é conhecida como ponte 25 de Abril era inicialmente conhecida como Ponte Salazar, apesar de a sua designação oficial ser Ponte sobre o Tejo.

Atualmente é uma ponte rodo-ferroviária, mas nem sempre foi assim.

É o elo de ligação entre Lisboa e Almada, atravessando o estuário do Tejo na sua parte mais estreita (o chamado gargalo do Tejo).

História da Ponte 25 de Abril

1876 a 1974

Em 1876 o Eng.º Miguel Pais sugeriu a construção da Ponte sobre o Tejo numa ligação entre Lisboa e o Montijo. Após isso foram pedidos estudos a vários engenheiros estrangeiros, sendo que cada um tinha opiniões diferentes. Em 1888, o Eng.º Lye, um norte americano, propôs que esta ponte fosse construída entre o Centro de Lisboa (o Chiado) e Almada. Um ano depois, os engenheiros franceses Seyrig e Bartissol propuseram que esta fosse construída entre a zona da Rocha do Conde de Óbidos e Almada. Já em 1890, uma empresa alemã propôs que a ligação se fizesse entre a zona do Beato, em Lisboa e o Montijo, sendo que a opinião pública na época favorecia esta mesma idéia.

No entanto, a decisão do governo português não tomou essa direcção. Em 1913, o governo recebeu uma proposta semelhante à feita pelos franceses em 1889. E foi esta mesma proposta que foi levada ao Parlamento para ser discutida no ano de 1921, mas a decisão da construção foi novamente adiada.

Em 1929, foi feita uma solicitação ao então Ministro das Obras Públicas, Duarte Pacheco, por parte do Eng.º António Belo, para a contrução de uma ligação ferroviária entre a zona do Beato, em Lisboa, e o Montijo. Perante esta situação, Duarte Pacheco decidiu, em 1933, nomear uma Comissão para que analisasse a proposta em causa e, com base nas conclusões desta Comissão, em 1934, ele próprio apresentou ao Parlamento uma proposta para a construção de uma ponte rodo-ferroviária sobre o Tejo.

Imagem 2 - Ponte 25 de Abril

No entanto, novamente, o Parlamento não aprovou a proposta pois ficou decidido dar-se primazia à construção da Ponte Marechal Carmona, em Vila Franca de Xira, que viria a ser inaugurado em 1951.

Mas, a questão do trânsito rodoviário e ferroviário entre Lisboa e a margem sul do Tejo continuava por solucionar e por isso, em 1953, o Governo português decidiu criar uma comissão que iria estudar e apresentar soluções para esse problema.

Imagem 3 - Ponte 25 de Abril

Assim, em 1958, mais de oitenta anos após a primeira idéia de construção de uma ponte que ligasse Lisboa à margem Sul, os governantes portugueses decidiram oficialmente iniciar a construção da Ponte, sendo que apenas a 5 de novembro de 1962 se iniciaram os trabalhos.

A construção da ponte durou 45 meses, sendo que a cerimónia de inauguração se realizou no dia 6 de Agosto de 1966, em Almada. O seu custo foi de dois milhões e duzentos mil contos.

Apesar de o nome legal da ponte ser Ponte Sobre o Tejo, esta era conhecida por todos como Ponte Salazar, sendo que muitos desconheciam mesmo o seu nome oficial.

Ponte 25 de Abril desde 1974

Logo após a Revolução que ocorreu em 25 de Abril de 1974, o governo tratou de alterar o nome da ponte, numa tentativa de apagar ao máximo os vestígios do regime fascista que acabara de ser derrotado. Assim, a ponte deixou de ser chamada Ponte Salazar para passar a ser chamada Ponte 25 de Abril.

Imagem 4 - Ponte 25 de Abril

Apesar de a ponte ter sido projetada para suportar o trânsito rodo-ferroviário, inicialmente apenas circulava nela o trânsito rodoviário. Foi apenas em 1996 que o Governo português procedeu à remodelação da ponte para corresponder ao efeito para que foi projetada, de modo que a 30 de Julho de 1999 foi inaugurado o tabuleiro inferior da ponte que passaria a receber o trânsito ferroviário.

Com a construção da ponte, a margem Sul do Tejo, nas zonas entre Almada e Setúbal, sofreu um crescimento muito acelerado tornando-se assim numa das zonas turísticas mais apetecíveis de Portugal.

Ponte 25 de Abril vista do Cemitérios dos Prazeres

Ponte 25 de Abril vista do Cemitérios dos Prazeres

Ponte 25 de Abril na atualidade

À data da sua construção, a Ponte Sobre o Tejo era a 5ª maior ponte do mundo, sendo a maior ponte suspensa existente fora dos Estados Unidos da América. Atualmente, apesar de terem passado uns quarenta anos, ainda é a 20ª maior.

Apesar da construção da Ponte Vasco da Gama que desviou grande parte do trânsito que se fazia pela Ponte 25 de Abril, ainda assim, nos dias de hoje, passam em média por cima da ponte cerca de 150 mil carros por dia.

Falta-nos, nesta nossa breve viagem por aqui, cruzar os caminhos do Mosteiro dos Jerônimos e comer o pastel de Belém, sem o que a vinda aqui ficará incompleta. Estamos nos programando, mas há uma intempérie por aqui – frio e chuva e tempestades localizadas ao redor de Lisboa. Aguardamos o tempo ajudar. E então voltaremos a falar.

Todas as imagens colhidas nestas vilegiaturas estão no meu perfil do Facebook, com riqueza de detalhes.