CARTA DE PORTUGAL (IV) - Portugal é o Brasil que nós sonhamos ser

Talvez seja esta a derradeira postagem falando de nossa viagem a Portugal, região de Cascais, na Grande Lisboa. 

Depois de satisfazer um desejo de sempre, repassamos pontos históricos e culturais com uma voracidade profunda. De Belém, de onde partiram e onde viveram grandes descobridores e agentes culturais da humanidade, se pode ter uma visão - se quiser olhar e ver - do que é sentir o poder de querer, traçar objetivos e conquistar.

Há quem para cá venha apenas com a intenção de vislumbrar e registrar cenários, mostrar sua presença. Isso também nos moveu, Dona Sonia e eu, porém cuidamos de ir mais fundo. Os interesses se multiplicaram em passar pelo Museu Nacional dos Coches, onde estão veículos dos tempos do Reinado Português, carruagens usadas por reis, rainhas e dignitários - no original - perfeitamente preservadas e expostas à visitação, com a historiografia presente. 

Chegar ao monumento dedicado aos descobridores e passar pela emblemática e notória Torre de Belém, bastião de onde se fez a defesa da orla contra invasores e inimigos, foi o comum. Ali consumar imagens, tendo ao fundo a famosa Ponte 25 de Abril, obra do ditador Salazar, preservadíssima e uma das 20 maiores pontes suspensas do mundo - já foi a quinta. Nela passam não só veículos de todos os tamanhos, mas também trens. 

A simbologia maior, neste local, é o Rio Tejo, berço, prosa e verso de tantas epopéias heróicas. 

Finalmente, adentrar a portentosa Igreja de Santa Maria de Belém, deliciar-se com seu visual magnífico interno e externo e, lá dentro, cruzar com os túmulos de Vasco da Gama e Luis de Camões é indescritível. O acesso é livre. Lá dentro, também, há os restos mortais de príncipes e reis das famílias reais portuguesas, gente que nem lembramos mais nos registros históricos de nossos estudos. 

Aí, apoteose: entrar no Mosteiro dos Jerônimos, ao lado. Paga-se ingresso. Por pessoa, dez euros (R$ 45,00). Idosos e menores de 18 anos, cinco euros (R$ 22,50). No Brasil, seria uma gritaria. Lá, normal. Pagar é só um detalhe, porque a visita - ah, a visita! - vale muito mais que isso. Porque há a presença espiritual de Fernando Pessoa e Alexandre Herculano, cujas cinzas estão lá, em pontos muito bem destacados. Sem contar o fato de ser um dos locais mais famosos do mundo, não apenas pelo fator político, mas histórico. Imensurável.

Lendo minhas narrativas aqui e no meu perfil do Facebook, houve até quem, em lá estando em viagens anteriores, ficou espantado com o que contei. Caso do conterrâneo do Araranguá, Cláudio Gomes, meu amigo de infância. Ele confessou que não viu o que eu vi e lamentou. Prometeu, ao retornar, cumprir o roteiro que cumpri. Vai "roteirizar" minha narrativa e cumprir. Fará bem e a recompensa é valiosa.

Ademais e, agora sim, finalmente:

Conviver num país de Primeiro Mundo é mais que ler ou cursar, apenas. Vale por anos e anos de bancos escolares.

Há visões de coisas praticadas no Brasil, por povo e governos, que espantam na comparação. Exemplos? Pois não.

a. Aqui não há caminhões de coleta de lixo passando de casa em casa; eles recolhem de contêineres subterrâneos, onde a população coloca os lixos orgânico e reciclável, disciplinadamente;

b. Não vi garis atuando nas ruas. As cidades, até onde vi, mesmo em bairros mais pobres, como Amadora, são limpas por educação social;

c. Vi policiais em pontos muito específicos: próximos aos locais turísticos e em praias. Estacionados. Policiamento ostensivo, nenhum;

d. Pisos podotáteis (Norma de Acessibilidade NBR 9050/2015, no Brasil) não existem, exceto em algumas estações de trem, para segurança, mas não em todas. E inexistem nas ruas e em locais de circulação grande de pessoas;

e. Não vi NENHUMA ciclovia ou ciclofaixa. Há calçadas largas em que o uso é compartilhado e claramente definido por placas, porém com preferência para o pedestre;

f. A mobilidade urbana entre cidades próximas é perfeita. Ônibus e trens à vontade, em horários a intervalos muito curtos entre um e outro. E horários cumpridos rigorosamente. Compra-se o crédito num cartão e com ele, digitalmente, se embarca e desembarca;

g. Não recordo de ter visto cruzamentos em grandes vias de circulação. Só rótulas. Tudo é sincronizado por rótulas. Poucos sinais de trânsito. Muito poucos;

h. Fomos à praia de Carcavelos, uma das mais famosas. A passagem de pedestres à orla é subterrânea, a partir dos acessos laterais. Por isso não há sinais e faixas de pedestres no local. Nós, por desconhecimento e para estranheza dos portugueses (brasileiros...), ousamos atravessar a pista quando se abriam brechas na circulação. Só notamos o subterrâneo depois;

i. Os parques naturais - como o Parque dos Bugios, em São Domingos de Rana - são lindíssimos e cuidados ao extremo, pela população;

j. Estranho: nada de proibição de pisar na grama em canteiros. Pode.  Depende de cada um;

l. O atendimento à saúde de um turista pode ser no sistema público português, em qualquer cidade, desde que se tenha retirado o PB4 no Ministério da Saúde no Brasil, através de suas representações estaduais. Bom saber o que é o PB4 e como funciona. Leia o link adiante. (EM SC É ESTA AQUI: https://www.jafezasmalas.com/o-que-e-pb4/). Detalhe: o atendimento não é propriamente gratuito, mas os preços pagos são irrisórios, mesmo para exames sofisticados e internações. Praticamente um valor simbólico. Tipo assim: uma internação com eletrocardiograma, ultrassom e raio-x incluídos custam 22 euros, algo como, estradulando, R$ 110,00 reais, com médico incluso. Isso os portugueses também pagam, não só turistas. Outro detalhe: gestantes, idosos e menores de 18 anos não pagam nada. É automático e rápido o atendimento. Sem agendamentos prévios de horas, muito menos dias ou semanas ou meses. É na hora. Se for internado com qualquer sintoma e precisar de averiguação e exames, não sai do hospital sem estar tudo resolvido e medicado. É critério, digamos, pétreo. 

m. Criança nasce. No próprio hospital há uma equipe em sala especial para fazer a identidade, em cartão magnético, com todos os dados. Inclusive fotógrafo. A mãe nem precisa se deslocar pra lado nenhum. Sai dali pronto;

n. Portugal, enfim, está, historicamente, no estágio de sociabilidade, desenvolvimento, preservação e educação que sofregamente buscamos todos os dias. Sem sucesso.

País estranho...