A esquizofrenia dos políticos em luta e os nossos maus hábitos ante o coronavírus

São tantas as discussões sobre como combater, evitar ou tratar os doentes por coronavírus, que se chega a enjoar de tanto ler e dá muito trabalho escolher o que é pior ou melhor dentre as hipóteses e teses aventadas.No fim, a conclusão parece ser estúpida: nada presta e tudo é bom. Chegamos a um grau perigoso de paroxismo e isto até justifica, sob certo prisma: nossa geração jamais viveu situação semelhante. Nem perto. Pandemia era só tema de filmes catastrofistas. Vê-se que a realidade é muito pior.

A decisão de ficar ou  não em casa vale, principalmente, para os grupos de risco. Mas também para os demais, pois a exposição pode acarretar a infectação (caso de aglomerações). Estatísticas colocam os mais novos em risco menor, embora isso nem sempre seja verdade, principalmente num caso assim.

Depois vem a descoberta de um remédio para combater o mal - a hidroxicloroquina, usada para malária com relativo sucesso e até agora vendida em farmácias quaisquer sem receita e sem recomendações especiais. De repente, virou um tarja preta. Quase um veneno letal.

Os debates em torno do medicamento beiram o ridículo, inclusive e principalmente entre a comunidade cientifica. Até renomados institutos alegam que não há garantias de cura e, pior, há contraindicações poderosas, efeitos colaterais (mas até Melhoral ou Sadol podem ter efeitos colaterais, se mal consumidos). Estaria, por final, fora do "protocolo" do Ministério da Saúde. Outros a defendem sem receio, como o médico e deputado Osmar Terra. Que é, de quebra, contrário ao confinamento como norma básica de combate ao coronavírus. Ele disse e repetiu que o confinamento, ao contrário, não resolve nada e, ainda mais: pode até piorar tudo. Não discuto o que não conheço ou sobre o que não estudei. Há países em que o confinamento resolveu, teoricamente. E há países, como o Japão, onde o confinamento não foi adotado e funcionou. E aí jogamos para a imaginação o fato de que o Japão tem disciplina para seguir regras e cuidados. Nós não. Há toda uma convicção, por precedentes fartos ao longo da vida do país, que, liberado o funcionamento de tudo e, mesmo ante recomendações de cuidados, não seguiremos. O brasileiro é indisciplinado por natureza, mesmo ante o risco da própria vida e dos seus. É duro, mas é assim. Nem precisa explicar muito e nem teorizar além. Um exemplo clássico é o trânsito. Sob a regência de um código bem formulado, com exceções e permissões claríssimas e "obrigatórias", nosso trânsito é o que mais causa mortes no mundo, justamente por conflito deliberado com a lei. Acrescente-se a isto a renitência contra a Lei Seca. Lá atrás, só para citar um exemplo final, lutou-se com todas as forças contra o uso do cinto de segurança, afinal usado hoje por hábito automático, graças à persistência das autoridades na sua exigência. Portanto seria ingenuidade aceitar que o brasileiro seguiria ou seguirá sem pressão rigorosa alguma norma de cuidados com sua saúde contra o coronavírus, se nem sabemos lavar as mãos, que é o primeiro e principal requisito para evitar o contágio de qualquer tipo de doença.

A mim me parece que o mal maior, acima da briga esquizofrênica dos políticos e alas do poder em cima do fato atual, está nos nossos maus hábitos enraizados. Dentre eles o mau voto.

Enquanto isso, o inimigo avança, incólume. Triste.

(Publicação simultânea na minha coluna do Portal Engeplus, de Criciúma)