Talvez Bolsonaro se tenha convencido de ter sido coroado rei de uma monarquia

Afirma-se: Moro, a ser como disse, não deveria ter aceito o convite para ser ministro.
Inverto: se, conhecendo o caráter do juiz Moro, Bolsonaro é que nunca deveria tê-lo convidado, ainda mais prometendo "carta branca", como efetivamente o fez e não cumpriu.

Quero ver se os que defendem com intransigência o presidente manterão a defesa quando ele se unir - e vai se unir, por condição de pura sobrevivência ou se verá isolado - aos carrascos da moralidade do Congresso, justamente aqueles que representam tudo o que ele combateu e foram motivo dos votos para a sua eleição. Expectativa para o que dirão então.

Por mais que digam de Moro e tenham razão, fica complicado crer que um juiz de carreira sólida na magistratura, deixar tudo pra assumir cargo de demissão livre e ainda, por coisas que fizesse (e fez) no cargo, colocar em risco a vida sua e da família. Na sequência:

Primeiro a entrevista de Moro com sua versão. Depois a de Bolsonaro, rebatendo.

Ambos foram fatais, ambos foram mesquinhos, por colocar fatores pessoais de sua relação na conversa, mas respostas de fatos são aguardadas.

Minimizar efeitos políticos é sem sentido. Eles virão. Agora e depois, com reflexos em 2020 e 2022. 

Há ainda coisas a se analisar, além disso tudo. Em todos os governos entraram e saíram ministros, mas nunca tantos com as tipificações dos ministros de Bolsonaro: por graves e contundentes conflitos internos, na relação com o próprio presidente ou com seus auxiliares. Pior: com seus filhos que, a rigor, nem formam assessoria governamental.

Nenhum presidente trocou tantos ministros num primeiro ano de gestão. Saíram Bebianno, Ramos, Vélez e Santos Cruz. Nenhum "em paz".  Agora caíram Mandetta e Moro. Novamente sob fogo interno. Ou todos estão errados ou errado está o governo. Todos eram de "absoluta confiança". Parte saiu por fofoca virtual, como as dos filhos do presidente - Bebianno e Santos Cruz. Se isto parece correto para muitos, para mim não parece nada correto. Prova desconforto, desconexão com realidades.

A fala do presidente, tentando responder com acusações iguais às acusações de Moro (levianas umas e outras - além de desnecessárias e inconvenientes), foi mesquinha e rasa, de tantos fatos citados: os crimes da sogra, o aquecedor da piscina presidencial, os crimes da mãe, os charivaris dos filhos (as relações do "04" com uma moça) - minúcias sem qualquer vínculo.

Uma incoerência do presidente: garantiu a independência da PF, mas reclamou o quanto pôde da falta de ação de Moro ao não forçar a investigação sobre Adélio Bispo e o envolvimento suposto da família presidencial no caso Marielle. Buenas, ou tem independência ou não e, portanto, nem ministro e nem presidente poderiam interferir. As reclamações, então, não procedem, mesmo ante eventual erro da PF nos casos citados.

Sendo rápido, bom sempre estar ao lado da verdade. E ela não está muito evidenciada em torno do episódio. 

Poucos presidentes da geração pós-militarismo, ou nenhum, foi tão cheio de crises eclodidas desde suas próprias entranhas. E me parece haver, por isso, uma notória falta de liderança. O cara do tapa na mesa pondo fim ao papo, sem a ousadia exagerada do "quem manda sou eu". Se mandasse mesmo nada disso ocorreria. Os primeiros a serem estapeados seriam os fofoqueiros, a começar pelos filhos do presidente e pelo "filósofo" Olavo de Carvalho, seus mentores principais. Um "calem a boca" viria bem. Ele é capaz disso? 

No fundo, no fundo, creio que Bolsonaro, pela força popular com que subiu e se manteve até aqui, crê ter sido coroado Rei, não eleito presidente dum regime democrático.