É para Bolsonaro dialogar ou não? Se for pra dialogar, quais as condições e limites?

Ou somos uma nação de ingênuos, majoritariamente, ou de desafetos declarados e omissos quanto as realidades fáticas da política. Agora condena-se Bolsonaro por negociar apoio do Centrão, grupo decisivo no Congresso, pela chamada (gasp!) "governabilidade". A condenação se baseia na contradição entre a pretensão e a pregação de campanha, a tal da "velha política", manjada e hipócrita por qualquer prisma que se a vislumbre.

Pois bem. Aos fatos: a pregação de Bolsonaro realmente confere: ele prometeu não ceder a essa "velha política". Se sabia ou não poder fazê-lo sem se machucar, é de duvidar, mas sabendo-o experiente deputado por 28 anos de janela no covil da Câmara dos Deputados, isso meio que some (a dúvida).

Outro fato: sem maioria no Congresso, só ditadura como a dos militares, com Congresso aberto, porém com AI-5 com suas afiadas navalhas penduradas sobre a cabeça dos parlamentares e Judiciário. Quando havia resistência, fechava-se, como ocorreu. Ou se cassavam tantos mandatos quantos forem necessários, como ocorreu e não apenas uma vez.

Postei no Facebook, sobre isto:

"Viviam dizendo que o presidente não buscou diálogo com o Congresso. Agora ele buscou e o acusam de "aliar-se ao Centrão". Queriam que ele dialogasse com o Congresso em que termos e com quem, sabendo-se como sempre agiram, em todos os governos? Mandando buquês de flores e fazendo juras de amor eterno e lealdade institucional em favor do Brasil? Contem outra, esta é velha".

No rastro da postagem, muitas observações, contrárias e favoráveis.

Algumas impondo que, se ele prometeu não negociar, deveria cumprir. Então lembrei, historicamente, reforçando minha tese - discutível, sim e se alguém desejar, mas minha:

"Em todos os países do mundo, com raríssimas exceções, principalmente nos parlamentaristas, se o eleito não faz maioria nos congressos, tem que negociar com os adversários ou não governa. Independente do que pense, diga ou pregue como sua verdade ideológica. Assim é na Itália, em Israel, na Alemanha, na Inglaterra, na Espanha (democracias consagradas) e no Brasil, para citarmos exemplos mais corriqueiros. Lembro um episódio brasileiro forte: o comunista Luiz Carlos Prestes teve sua esposa Olga Benário deportada por Getúlio Vargas para a Alemanha de Hitler, onde morreu num campo de concentração. Na eleição seguinte, em nome da governabilidade, Prestes subiu ao palanque eleitoral em favor de Getúlio. Em nome da sobrevivência do partidão. Quer exemplo mais dolorido de como as coisas são? O erro do Bolsonaro, aí admito, foi dizer o que, em sã consciência, sabia não ser possível cumprir. Mas isso, como eu já falei lá atrás, todos dizem: prometem sabendo que não será possível cumprir. Todos".

Não reporto muitas das mensagens postadas lá porque há nelas conotações fundamentadas no que disseram "especialistas" e estes eu questiono, pela multiplicidade heterogênea de teses dependentes do fluxo e refluxo da maré dos fatos e do lado que o vento sopra, ora a favor, ora contra (ou seja, nunca têm certeza de nada, apenas filosofismos oportunistas). E também porque há radicalismos com os quais não comungo, do tipo volta do AI-5, golpe militar no estilo 1964 e coisas por aí.

Ao final, e mudando de mala pra saco, lembro que postei lá também:

Pra mim, quem grava conversas reservadas e guarda correspondências trocadas no exercício do cargo ou revela conteúdo de conversas fechadas havidas em confiança e as usa para acusar alguém com quem conviveu é canalha. Desconheço definição mais perfeita. Seja quem for.